AGO/05

SUÍTE 11

* Paulo J. Soavinsky

Tenho 20 anos e estou na Ilha pela primeira vez. Sempre tem uma primeira vez e, às vezes, a primeira vez parece que é para sempre. Presente de aniversário. De todos, o que mais gostei, apesar de ter preterido ver o São Paulo abrir caminho para ser campeão pela Libertadores, em Porto Alegre, empatando com o Atlético. Um gol contra prenunciou que o rubro-negro seria vice. Pensei, posso ver o jogo pela TV e ainda conhecer a Ilha. Fui e não me arrependi. Na primeira noite, conheci uma mulher muito viva, e não apenas no sentido de esperta, como mais à frente o leitor vai descobrir. Tanto que tentou me passar a perna. Muito simpática e bonita a danada. Foi depois do Forró do Buraco Verde, início de julho, na Gruta das Encantadas.

Parecia verão. Extraordinariamente, o forró continuou até às quatro. Normalmente os guardas já estão na porta às duas e todos vão dormir. Nada mais há para se fazer depois que acaba o baile. Com exceção dos casais enamorados, que se aninham nas praias e pedrouços, à espera do Sol, e os fresteiros, que os seguem às escondidas.

Não quis voltar para o quarto, ver televisão. Resolvi conhecer a Gruta, famosa por suas lendas. Noite de Lua Cheia, sem nuvens e aquele abafamento convidando para um banho de mar. Uma grande parte do caminho acompanhei outras pessoas em mangas de camisa, que seguiam pela praia na mesma direção.

- O verão veio passar o inverno na Ilha, escutei um pescador dizer para alguém.
Depois da padaria fiquei sozinho, num carreiro ladeado por bocas-de-leão. Segui em frente, pelas placas indicativas, até encontrar a passarela. Fui no fundo da Gruta sem medo e, na volta, tirei a roupa e entrei na água. Minto, antes disso cometi um pequeno delito. Peladão, com o canivete, entalhei meu nome no tronco de eucalipto da passarela, perto da lixeira. Romeu. Só Romeu. Podia continuar, pôr data, coração e flecha, com nome de namorada, como vários que li pelo caminho. Ou então, o clássico "esteve aqui" e mês e data. Fui para o mar.

Limpa e fosforescente, a água convidava para mergulhos mais longos. Abri os olhos em baixo da água e tive a sensação de mergulhar na galáxia, por causa das borbulhas luminosas. Tranquei a respiração ao máximo que pude agüentar e me deu a famosa euforia de mergulhador. Esqueci dos perigos que o mar traz aos incautos. Quando tornei à tona para respirar vi que estava longe da costa. Uma correnteza forte me carregava para o Canal da Galheta, por onde passam os navios para o Porto Dom Pedro II.

Foi ai que distingui, sentada frente à pedra grande, ao lado da minha bermuda, camiseta, relógio e tênis caríssimos, uma figura fantasmagórica de mulher a me observar. Esteve o tempo todo ao meu lado e não percebi. A pedra a ocultava dos olhares da gruta para o mar mas não o contrário. Era ruiva e, não sei porque, me veio à memória a estória contada na rádio, à meia-noite, da ruiva fantasma que pegava táxi em frente ao cemitério. Quando chegava no destino ela dizia ao motorista que ia entrar para pegar o dinheiro da corrida e sumia. O motorista, irritado com a espera, resolvia bater à porta por onde entrou a ruiva. Uma velhinha atendia, recolhia o motorista e o colocava estrategicamente perto de retratos antigos. O motorista reconhecia a passageira e a velhinha dizia que a moça da foto era sua filha, falecida há anos. Refinada vigarice, para não pagar a corrida.

Redobrei as forças e nadei a favor da corrente, em direção ao Farol da Ponta do Caraguatá. Muita gente morre afogada nesta situação. Elas nadam contra a corrente, cansam e morrem. Outras são devoradas por tubarões. Outras vão de encontro às pedras e são cortadas pelos mariscos e espetadas pelos ouriços do mar. Afastei os pensamentos soturnos que me assaltavam e me concentrei no meu objetivo de chegar a um porto seguro. Nadei um bom quarto de hora calmamente, por trás da linha de arrebentação, como se não estivesse em grande perigo, até avistar uma nesga de areia. Ai nadei para valer.

Quando retornei à Gruta das Encantadas, parte escalando pedras e parte nadando pequenos trechos, descobri uma segunda gruta pelo caminho. Era quase dia claro e ela ainda estava lá, a ruiva. Achei aquilo tudo muito cômico. Eu, peladão, escalando pedras, e a desconhecida me olhando como se estivesse vendo apenas a paisagem. Vexado, vesti as roupas rapidamente e surgi por trás dela.

- Que susto! Fingiu a ruiva. De onde é que você veio? E me avaliou dos pés à cabeça. Eu vim do outro mundo, brinquei. Escapei por pouco. E você, por acaso é alguma fantasma? Está aí sozinha, a estas horas. Ela era daquelas mulheres que têm mais idade mas não aparentam.

Ela riu, levantou-se dizendo que tinha mais medo dos vivos e me convidou, insinuante, para uma caminhada. A avaliação que fez dos meus bens a deixou tranqüila, a ponto de convidar um estranho para passear pelas praias desertas. Isso daria tempo a ela de me conhecer melhor e preparar o golpe que planejou com as amigas, para poder sair da Ilha sem pagar as contas, que já estavam nos quatro dígitos, num simples final de semana. Elas bebiam e comiam só o que havia de melhor na pousada. E o escolhido para pagar as despesas das três chamava-se Romeu.

Boa de conversa, em meia hora de caminhada nos tornamos velhos amigos. A ruiva não deixava de fazer perguntas pessoais em meio à tagarelice juvenil sobre estrelas, o infinito e como somos pequenos perante o universo. Descobria tudo a meu respeito, a cada passada. Dirigiu a conversa para o motivo que a levou à gruta de madrugada. Antes, preparou todo o clima, falando como tem alma boa no mundo, gente que não se preocupa com dinheiro, amigo que é amigo de verdade e outras ladainhas de cobra hipnotizando presa.

Ela estava com um problemão, disse, quando nos sentamos no banquinho do Morro Careca. Estava bem próxima, quase roçando sua perna na minha. Baixou a cabeça e de repente começou a soluçar.

A princípio relutou em contar o que a afligia. Achava que não devia dividir seus problemas com um amigo que conheceu a pouco. Não era direito e coisa e tal. Insisti que me contasse. Insisti muito, posso frisar. Ela disse que tinha vergonha, era uma questão de dinheiro. E contou que ela e suas duas amigas tinham sido roubadas, que estavam duras e não tinham a quem recorrer e que ao meio-dia teriam que deixar a pousada e pagar as despesas.

Prontifiquei-me a pagar toda a despesa e depois, em São Paulo, elas me devolveriam o dinheiro. No meio da caminhada a ruiva tinha dito que morava em São Paulo também. No Morumbi. Ela alegrou-se com a solução e quis me dar um beijo. Não deixei, disse a ela que não queria me prevalecer da situação. Ela enxugou as lágrimas e agradeceu a ajuda, dizendo que eu tinha um bom coração e que queria contar a novidade para as amigas.

Deixei-a na porta da pousada mais chique das Encantadas, quando o sol apareceu. Antes de entrar, ela virou-se e me mandou um beijo. Combinamos que ela me telefonaria quando entregasse o apartamento e eu iria pessoalmente até a sua pousada, para pagar a conta com um cartão. Percebi que a solução não a agradou. Ela inventou de tomar café comigo e conhecer a minha pousada. Convidei- a então a ficar, com as amigas, mais uma semana, por minha conta, na pousada em que estava hospedado. Ela desistiu do café.

As amigas da ruiva exultaram quando ela contou que tinha um otário na mão e que podiam ficar mais uma semana na Ilha. Resolveram sair em grande estilo, com almoço regado a vinho de 80 paus a garrafa e lagostas.

Depois de se fartarem, chamaram um carrinheiro e disseram ao dono da pousada que esperavam um amigo. Que era para fazer o favor de ligar para Romeu, que estava na suíte 11 da Pousada Bom Abrigo. O dono disfarçou e quando as três não podiam ouvir o que dizia ao telefone, chamou a polícia.

Ao sargento da guarnição o dono da pousada explicou que as três eram estelionatárias, que trouxeram um comprovante frio de depósito de 50% das diárias, feito em caixa automático na sexta-feira, depois das quatro. O banco tinha confirmado que o envelope estava vazio. A ruiva apelou, xingou e exigiu que telefonassem para o amigo Romeu. Ficou surpresa quando o sargento disse que a pousada não existia. Tinha sido destruída num incêndio, há anos, justamente na noite em que um hóspede, jovem, chamado Romeu, morreu afogado na gruta.

* Jornalista

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