Junho de 2004

Ninguém morre. As pessoas despertam do sonho da vida. Raul Seixas

Parte I

Velhas lembranças

Depois que meu marujo lirou, no paraíso, a necessidade de voltar à gruta em que o conheci, no final do caminho do Peabiru, tornou-se imperiosa. Centenas de anos após deixarmo-nos cobrir, de mãos dadas, pelas águas quentes do Atlântico Sul, no momento em que enxerguei a faixa negra vertical dividindo as rochas mais velhas que a espremem, o mantra me veio à mente. Costumava entoá-lo, juntamente com minhas irmãs encantadas, no fundo da boca aberta pela fúria do mar, no pé da montanha. Era nosso dever vigiar a passagem.

Passávamos o dia a cantar alegremente em dialeto extinto, olhando as gaivotas que flutuavam no pequeno espaço de céu emoldurado pelas rochas pré-cambrianas. Na base, quase confundindo-se com o azul celeste, estava o mar, com suas ondas mansamente embalando nosso cântico, que transmitia a seguinte mensagem:

Passe com cuidado a ponte
E viva bem com os outros
Assim como eles vivem bem
Tu também poderás viver
Hão de te vir buscar
E te levarão com eles
Para a tua morada

Foi num destes dias de sol a pino, com o mar calmo e a brisa acariciando as folhas verdes das encostas dos morros, que passou pela janela da gruta uma nave de madeira, cheia de humanos. Tinha mastros e panos envoltos em cordas que eram puxadas por marujos brancos como sal. Grandes remos saíam da embarcação e ajudavam a impulsionar o barco ao som de um tambor. Parecia uma centopéia. Bum, bum, remos pingando, para cima. Bum, bum, para a proa. Bum, bum, na água. E a coisa se repetia.

Apesar do calor, os estranhos do convés cobriam-se com couro de animais de pelo e usavam máscaras xamãs assustadoras. Proteção contra o sobrenatural. Um costume nas viagens longas a terras estranhas. Continuamos o mantra no fundo da gruta, agora hipnotizadas pela novidade singrando ao largo. Não era comum ver-se viajantes do mar por estas paragens tropicais. Os índios em suas toscas igáras-oçu ou igáras-tê (canoas de vulto ou verdadeiras, que comportavam 40 a 60 pessoas) não contavam. Não nos preocupávamos com eles. Nosso canto de sereia aumentou. A morte espreitava os marinheiros nos rochedos, conforme predissera o oráculo.

Jamais alguém por aqui passou, em nau escura, que não escutasse a melíflua voz que sai de nossas bocas; mas só partiu, depois de se ter deleitado com ela e de ficar a saber mais coisas, pois conhecemos tudo quanto, por vontade dos deuses, Aegivos e Troianos sofreram na vasta Tróia, bem como o que sucede na terra fecunda.

Lentamente a nave cruzou a barra sul e entrou pela baía, fundeando frente à pequena praia de areias quentes. Um grupo de marujos aproximou-se pelo baixio, remando uma canoa. Assim que deram na praia, alvoroçaram índios nus que saíam da mata carregando cestos de comida. Nem chegaram às pirogas que os levariam ao continente. Mariscos e cajus apanhados pelas índias ficaram para trás.

Os viajantes, que buscavam água e alimentos, se apossaram dos cestos com as frutas amarelas, perfumadas. Um deles quebrou a casca da iguaria, curioso com a descoberta. O molusco esbranquiçado, se mexendo, enojou-os. Abandonaram o cesto de mariscos. Descobriram as pirogas quase imperceptíveis, entre a vegetação e as quebraram. Dias depois as cascas delas foram parar na fogueira.

A correria dos índios assustou um bando de nervosos papagaios da cara roxa mas não alguns tucanos. Sua plumagem colorida e bicos amarelos e compridos, virados para um lado e outro, para poderem enxergar melhor o que se passava na trilha abaixo, chamou a atenção do grupo de caça. Nunca viram nada igual... as mulheres nuas... aves tão mansas, coloridas...a paisagem paradisíaca.

Tinham os ouvidos tampados com cera. Levavam nas costas barricas vazias para água potável e, na cintura, a lâmina de facas retorcidas refletia a luz do sol na mata escura. Dois deles tinham as mãos ocupadas com bestas. O mais alto, de olhar imbecil, que vinha à frente do grupo, não pensou duas vezes. Atirou uma seta que transpassou vários tucanos. Se pudesse, flechava algum índio, curioso para ver a cor do seu sangue.

A areia alva tingiu-se do vermelho das aves, indicando as mudanças que viriam, dali por diante, na Ilha da Baleia. Atemorizados, os índios se embrenharam na floresta. O visível oculto - a existência de gente diferente no mundo -, tinha se revelado.

Depois de dar ordens ao grupo, com gestos vigorosos, meu corajoso marinheiro - que não acreditava em estórias de bêbados, contadas em tavernas escuras -, afastou-se sorrateiro e, descobrindo uma trilha em direção à gruta, não teve dúvidas em seguí-la, desaparecendo para sempre. Como Ulisses amarrado ao pé do mastro do próprio navio, encantou-se com o som da harpa misturado a vozes de raparigas.

Os companheiros deram buscas na mata durante o resto do dia e seguintes, sem muito empenho. Não descobriram a trilha que levava à gruta, oculta pela vegetação. Se ouvissem o chamado, a trilha os descobriria. Mas tinham tampado os ouvidos. A trilha era pouco usada pelos índios, por causa das lendas que os antigos contavam sobre o lugar, considerado sagrado.

O grupo de buscas sentia a presença dos Carijós a cada passo, por trás da selva iniciada por marmeleiro-da-praia, xaxim-de-espinho, palmito, cipó imbé, gravatás, ouviras e exuberantes talhas-raná. Pensavam que o sumido tinha virado comida dos índios. Entraram nas canoas e levantaram âncora, sem remorsos, dez ou quinze dias após calafetarem a nau. Os porões bem abastecidos com água fresca, capivaras, catetos mortos e frutas tropicais. Bem que tentaram aprisionar algum silvícola, para pô-lo a ferros nos remos. As máscaras tinham surtido efeito. Os índios fugiam esbaforidos à menor aproximação.

Deixaram na praia, próximo de um córrego de águas transparentes, um pesado tacho de metal, sem asas, onde ferveram água do mar para obterem o precioso sal. Um sinal claro de que pretendiam voltar. Os índios não mexeram no tacho. Sequer o tocaram, aconselhados pelo pajé, com receio de lhes sobrevir alguma maldição.

Na primeira maré de lua o tacho foi coberto pela areia e, anos depois, ganhou a companhia de outros, muito maiores, usados por Espanhóis, Franceses e Ingleses. Flibusteiros, contrabandistas de sal e piratas prontos para atacarem qualquer navio com ouro e pedras preciosas. Os tachos espalharam-se pelas ilhas ao redor, em remansos discretos. Todos estão, agora, cobertos de areia, menos o do Porto do Tacho, que está coberto pelo mar que quase divide a Ilha da Baleia em duas, na Brasília.

Emocionada com as recordações seculares que invadiam minha alma aos borbotões, desci à gruta pela escadaria negra. Rompi a barreira física recomendada, em busca da sensação de andar descalça sobre a areia úmida. A gravidade me pegou. No fundo encontrei as mesmas pedras diabásio que serviam de banco anos atrás, quando passava os dias cantando com minhas irmãs encantadas.

Mirei o teto de rochas negras com seus degraus agora invertidos e acompanhei a queda cinematográfica de uma gota d'água. Nela vi o futuro da ilha até ser encoberta pelas águas de novo. Um filme de muitos anos passado em segundos, como dizem que acontece com quem vai morrendo. Um ritual a ser seguido. Ver toda uma vida passar pela memória, antes que os olhos baixem os panos.

Acho que vi o meu futuro também na película da gota e o dos novos habitantes da ilha, adaptados à força aos costumes dos conquistadores europeus, que viviam entre quatro paredes, em cidades monstruosas e há muito se distanciavam de ver as horas passarem pelo sol, pela lua e pelas estrelas. Nelas os homens amavam máquinas e tornavam-se máquinas para sobreviverem.

Vi cercas de arames farpados impedindo antigos caminhos na ilha, rios malcheirosos e sem vida, paredões de tijolos maiores que as mais altas árvores e homens que não se entendiam nas coisas mais simples, movidos pela ganância de ter máquinas, ganância desmedida por objetos que, para funcionarem, colocavam em risco a vida de todos os seres do planeta, reais e imaginários. Homens que, quando criança, juraram para si mesmos que seriam diferentes dos seus pais, quando fossem adultos. Muitos deles foram viver na ilha e acabaram se esquecendo do juramento, embrutecidos pelos sonhos sufocados.

Apalpei as paredes úmidas da caverna e senti fraca a energia. A natureza reclamava a volta dos seus guardiães do Paiquerê, para defender o oxigênio da vida. Em nenhum momento me arrependi de ter deixado passar os humanos, pensei. Pior, deixei-me encantar por um deles, atraindo o ódio de deuses vingativos. Mas cá estava eu, de volta a um corpo que sente dor, fome e sede, como alguém que volta ao fim da fila para fazer tudo igual de novo.

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