Dezembro de 2004 - Parte II
Duas barreiras ainda persistem para conter o avanço de mega-investidores, avaliava Guaraqüeçaba, se dirigindo à bica da Praia de Fora, para pegar água: A água e o esgoto. Mantinha o hábito desde a morte precoce do seu marido boêmio. Suspeitava-se que o Alaor tivesse participação no caso. Mas não havia prova.
Ela fazia longas caminhadas sozinha, pensando com os seus botões. Usava pegar água como desculpa. Mantinha ainda o corpo bem delineado. Os cabelos embranqueceram.
Gozado: antes de morrer o Ademar disse que eu era uma sereia. Falou com tanta convicção, sério. Falou em guardiães. Velhos conhecidos, todos mortos. Acho que foram os remédios. Mas aquilo a perturbava. Sereia, sereia... a frase sempre voltava a martelar.
Mudou o rumo dos pensamentos, ao tropeçar num cano de esgoto, descoberto pela ressaca. Antigamente as ressacas revelavam esqueletos de navios de madeira. O coração passou a bater descompassado.
A falta de água doce, aliás, foi a salvação quando uma rede hoteleira portuguesa se interessou pela ilha. Descobriu o problema a tempo e pulou fora, para azar dos vendilhões, que juravam não haver problema algum, de olho na gorda comissão.
Existiram outros projetos mirabolantes, como o de um arquiteto, que queria transformar a ilha no paraíso dos milionários, com campo de golfe e tudo.
Caso o plano vingasse - e ele foi levado a sério -, os moradores da ilha estariam vivendo em favelas nos mangues do porto. Todos seriam tratados como posseiros e despejados. Até hoje os moradores se arrepiam quando se fala que um arquiteto, sozinho, está bolando algum tipo de plano para a ilha.
Sentiu um aperto no peito ao olhar para trás e ver as ruínas da Praça da Alimentação, cercada de mansões com piscinas. A Praça de Alimentação, construída sobre uma duna, abriu caminho para construções particulares de casas, "resorts" e pousadas sobre outras dunas.
As mansões tinham amplas varandas, janelões de vidro fumê, algumas com heliporto e escadarias que levavam à areia fofa da praia. Duas destas escadarias terminavam em pequenas poças fétidas, separadas uma da outra por estreita língua de areia. Ilhas de sacos de caliça permitiam a passagem, sem que os pés entrassem em contato com a água preta.
A mansão da gruta... Guaraqüeçaba sorriu. Esta pelo menos não saiu do papel. Custou muitas vidas, inclusive o assassinato a facadas do puxa-saco do Alaor, na volta do forró da praça, em noite sem lua. Crime de vingança. Alaor estava por trás de vários assassinatos contra nativos que não queriam vender suas terras em volta da gruta.
A tentativa de construção da mansão desencadeou uma puta guerra, liderada por Guaraqueçaba, contra um bispo-prefeito, aliado de Alaor, que teve a língua partida com um soco em uma reunião com a comunidade, armada para aprovação de um novo plano de uso da ilha que beneficiava apenas o bispo-prefeito. Ele nunca descobriu quem bateu. Foi o Davi, amigo de noitadas do Ademar. Costumavam ir de bar em bar, onde o violão brilhava. Era a via sacra.
O bispo-prefeito invocou que teria que dinamitar a gruta, para assentar nas pedras sua mansão. Tinha muito poder o bispo endinheirado e, durante 13 anos, tentou dobrar Guaraqueçaba, oferecendo-lhe vantagens pessoais. Mandou até matá-la mas seu plano falhou e ele quase foi preso.
Ladino, seu argumento para convencer o povo era que a gruta só servia para despachos e encontros amorosos de casais. Como tinha a maioria da assembléia legislativa no bolso, fazia passar leis que beneficiavam seus propósitos. Foi uma parada dura, que consumiu a saúde de Guaraqueçaba. Ela era a pedra no sapato nos planos mirabolantes do todo poderoso bispo-prefeito. Ficou isolada nesta luta entre o poder e a sua consciência ecológica. Pouco a pouco seus amigos tomavam distância.
Fechou os olhos e lembrou-se de uma Praia de Fora que só existia na sua imaginação. Um sol gostoso. Brisa suave. Queria ficar ali para sempre, olhando o mar, petrificada como o Chinês do Morro Careca... O Gorila congelado na Gruta...Tinha que ter uma sereia também... Apareceria numa foto casual, depois de revelada.Lá em cima daquela pedra Cansada de tudo, sentia-se muito cansada... Tanta luta para manter intacta a gruta, a ilha. A Praia de Fora limpa, pontilhada por biroscas desertas... Um casal de gavião-caranguejeiro à sua frente, pronto para voar... Maçaricos no vai e vem do suspiro das ondas... Uma garça azul... Urubus em círculos sob o morro da asa delta, flanando sem esforço, levados pelo ar quente... Os bancos das biroscas feitos com madeiras vindas do mar...cobertura de plástico e bambu... Parecia que um vento mais forte as levariam a qualquer momento...
Alguém subiu, para olhar o mar
Mas o mar não queria ser olhado
E foi mar, para todo o lado
Atrás das biroscas, onde se comia frutos do mar fresquinhos, acompanhados de uma cerveja gelada tirada de um isopor, assomava o mato rasteiro. O verde formava um colar, quebrado na trilha de areia, alva como um pingente de diamante. Ainda se podia tomar banho de mar sem precisar passar na farmácia depois.
Viu-se num longínquo verão, com os belos seios à mostra, a pele esticadinha, tomando banho de sol com um grupo de amigos, sentada no banquinho que, antes de ser banquinho, era tábua perambulando pelo mar. Fez amizade com cracas, algas e bichos esquisitos. Eram jovens, riam... Sentiu uma pontada no peito. Lembrou-se do Soneca. Tesouro do Vaticano. Bafo da Minhoca. Fonca, Henrique, Mourão, Danielzinho da sanfona... Ó pescadinha o salgo mandou dizer...Nego Blu.Orfeu - Já imaginou como vai ser isso aqui, daqui há alguns anos? Perguntou um dos amigos, morto com menos de 30 quilos, sozinho, numa cama de hospital.
Da Nave dos Argonautas
Esta música vai para
Quem tem água salgada na veia
E gosta da
Rabeca, viola e pandeiro
Faz gambá, sapateia
Pega-fogo, feliz, o marinheiro
Há meia hora eu estava
Carregado
Peguei mar calmo até chegar
Do outro lado
(bis)
É para Encantadas, Encantadas que eu vou
Lá faz tempo bom, até mesmo quando chove
(bis)
Mas o que é que tem lá?
Tem disco voador, tem sereia e tem Ninfa
Dançando um bom forró
Lá na praça
Com turista
Ai, meu Deus, meu Deus
Nossa Senhora
Vou para Encantadas
Lá o tempo
Não tem hora
Mas tem cada figura
Que nem vendo se acredita
O chinês na pedra
E o gorila congelado
Apolodoro relatou na sua escrita
Orfeu emudeceu o canto das sereias
- Vai ser deste mesmo jeito, disse Guaraqüeçaba com firmeza, aproveitando o gancho para iniciar uma longa peroração sobre plantas e fitoplânctons, fábricas naturais, inigualáveis, de oxigênio. Os deuses... Tsunami... Uma claridade e viu no fim do túnel Vô Lavínio, chamando-a na escadaria de diabásio da gruta.
Foi encontrada morta, a fisionomia tranqüila. Alguém tirou foto. Apareceu uma sereia esculpida na areia. Todo verão, no mesmo lugar, uma nova escultura de sereia aparece, como por encanto.
*Jornalista