Dezembro de 2004 - Parte II

Retaliações

De todas as novidades, a possibilidade da chegada da luz mexia fortemente com os caiçaras. O resto a maioria não entendia e nem tinha imaginação para compreender os estragos que traria no seu modo antigo de viver. Os "de fora" claro, não queriam a luz de jeito nenhum. Nem o asfalto para facilitar o acesso à tal área de preservação. A maioria era solteira e ainda não tinha passado ali muitos invernos.
A abominável televisão viria junto, argumentavam. Os nativos sonhavam com as novelas da Sandra Bréa, o Fantástico, a Praça da Alegria e o futebol pela TV. O Brasil era Tri-Campeão. Foi a primeira Copa do Mundo transmitida ao vivo e todo mundo sabia de cor o nome dos heróis da pátria: Pelé, Rivelino, Gerson, Tostão, Jairzinho... Poucos sabiam dizer o nome do presidente de plantão ou seus ministros.
Os nativos se agarravam no argumento de que seus filhos precisavam estudar à noite e que poderiam pegar melhores preços para o peixe. A única escola do local, até hoje, vai só até a 8ª série e não abre à noite. Quem quer continuar os estudos tem que ir para o continente. O preço dos peixes não melhorou para os pescadores, com a instalação da luz elétrica nos barracos. Mas venceram os defensores da luz e da televisão.
Guaraqüeçaba, que tinha entrado de cabeça em mais uma luta, apesar dos conselhos contrários, perdeu mais uma parada. Sentia-se cansada por ter que lutar por coisas óbvias, direitos básicos do cidadão. As coisas demoravam para acontecer.
Num primeiro momento instalou-se na ilha geradores, o que agradou a gregos e troianos. A luz tinha hora para começar e acabar. Vivia caindo, deixando os turistas ensaboados nos chuveiros. Os opositores da luz controlada - uma forma de evitar expansões desordenadas, por causa do limite da capacidade da rede elétrica - se irritavam e as queixas eram levadas individualmente, direto aos ouvidos das autoridades.
Muitas já tinham dado um jeitinho, usado de sua influência para comprar suas casas na ilha e passaram a manipular lideranças, jogando os moradores uns contra os outros, de olho em áreas promissoras para a exploração do turismo.
O inescrupuloso Alaor, depois que perdeu o cargo, acusado num esquema de tráfico de drogas e corrupção, passou a morar na ilha. O processo contra ele durou anos pendente na justiça e, com o tempo, caiu no esquecimento.
As associações criadas em defesa dos moradores, quatro ou cinco, eram fracas. Seus estatutos discriminavam o povo em categorias, dando margem para que os oportunistas tomassem conta. Viraram clubes comandados por oportunistas. Os votantes não passavam de 10% da população e as supostas eleições tinham chapas únicas, empossadas por aclamação. Para os moradores, as associações beneficiavam mais seus integrantes. Alaor era um exemplo. Sempre dava jeito de mandar e tirar vantagens das associações, fosse quem fosse a diretoria empossada, o prefeito ou o governador.
Em 25 anos, de 1970 a 1995, o número de casas na ilha quase que triplicou, saltando de 197 para 531, mas o número de habitantes permaneceu quase inalterado. Os números eram eloqüentes, quanto à expansão imobiliária desordenada. A ilha era uma Estação Ecológica para inglês ver, desde 1982. O órgão encarregado da gestão da ilha usava e abusava de dois pesos e duas medidas. A lei que dispunha sobre a criação de Estações Ecológicas proibia quase tudo aos nativos. Os endinheirados podiam tudo.
Para quem já teve até criação de vaca na ilha, a lei era absurda. Um fiscal, pago pelo governo do Estado, passou a morar na vila em seguida à criação da Estação. Logo foi apelidado de "Pantera-Cor-de-Rosa", por causa do seu jeito de andar, em analogia a um desenho animado. Zeloso das suas funções, mas sem preparo algum nas relações com a comunidade, passou a multar quem não se adequava às novas regras. Ninguém podia cortar um galho. Os fogões a lenha tornaram-se obsoletos. O gás era caro.
Um ódio surdo contra o fiscal passou a permear as conversas. Viu-se logo que turistas abonados ganhavam licenças para cortar árvores indesejáveis nos seus terrenos enquanto os pescadores tinham que esperar a boa vontade. Os pedidos dos pescadores, encaminhados ao órgão gestor, extraviavam-se com uma frequência cínica. Tinham que começar tudo de novo, depois de uma espera de meses, anos até, para uma reforminha, um banheiro, uma parede. Muitos desistiam, irritados com o jogo de cena.
Guaraqüeçaba foi a única que se preocupou com a integridade física do fiscal. Na primeira oportunidade que teve, resolveu ser franca e foi mal compreendida. Encontraram-se casualmente no caminho da gruta. Guaraqüeçaba o abordou e tocou no assunto. Presunçoso, o fiscal entendeu tudo errado e achou que ela o estava ameaçando. Quando os pescadores perceberam que a rigidez ecológica só valia contra eles, a coisa explodiu. A dificuldade de multar grandes predadores, como barcos de arrasto que atuavam debaixo do nariz da fiscalização, foi a gota d'água.
Vô Lavínio e outros pescadores mais velhos, sempre que tinham oportunidade, falavam da relação que existia entre a pesca de arrasto perto da costa e a diminuição, ano a ano, da "fartura de peixes e camarões". Mas muito pouco se fazia contra os criminosos, que agiam à luz do dia. Um ou outro barco era multado pela fiscalização, de vez em quando. Isso não os impedia de lançar suas redes em áreas de reprodução.
Os guardas-florestais eram poucos e não tinham estrutura para o combate, nem barco para sair, dar uma olhada, comunicar a marinha, tinham. Ficavam em terra, cuidando de pequenas infrações. Para cada quilo pescado pelas redes de malha fina destas traineiras, cerca de dez eram jogados fora, dizia Vô Lavínio. A miudeza morta ficava boiando, servindo de pasto para as gaivotas.
Descontentes com a situação, alguns pescadores resolveram descontar a raiva no fiscal, dando-lhe uma surra. Não fosse a interferência de Guaraqüeçaba, o fiscal teria morrido afogado. Depois de lhe aplicarem uma saraivada de golpes violentos, raivosos, jogaram-no na água, desmaiado.
Guaraqüeçaba se arriscou, salvando sua vida. Prudentemente, nenhum outro fiscal passou a morar nas Encantadas. A retaliação velada vinha na instalação, pelo governo, de benfeitorias em outros locais da ilha, menos nas Encantadas. Tudo demorava para sair, exasperando Guaraqueçaba.
Quando os nativos perceberam a urgência de um trapiche, eles próprios levantaram recursos e construíram seu trapiche de madeira e trilho, em mutirão. Gabavam-se que o custo do trapiche deles, em frente ao principal bar e mercearia, era infinitamente mais barato que o outro, construído há um ou dois anos antes, pelo governo, na Brasília.
Os trapiches eram importantes para o desembarque de turistas de mais idade. Estes gastavam mais que os jovens "duristas", como eram chamados jocosamente os que não ligavam quando tinham que desembarcar na água, dormir em barracas próximas das criações de porcos e galinhas ou em quartinhos com apenas um colchão velho.
Após a construção do trapiche houve a derrota completa dos ecologistas da ilha, como Guaraqüeçaba, com a instalação da luz a cabo, vinda do continente. Ai foi uma festa. Os terrenos já não eram tão baratos mas, mesmo assim, apareciam investidores dispostos a correr riscos. A documentação era precária e, na realidade, ninguém era dono de nada.
Casas, pousadas e sobrados de alvenaria, para atender os turistas de verdade, eram erguidos da noite pro dia. Os que podiam mais, tinham amigos influentes, como o Alaor, faziam o que bem entendiam, transformando a paisagem urbana das vilas na ilha em outro balneário comum, com restaurantes, padaria, bares, lanchonetes, confeitarias, sorveterias, etc. E muita poluição de cidade, de todos os tipos: sonora, visual, aquática e terrestre. Os rios passaram a ser esgotos a céu aberto. Camarão ferro e guaru-guaru foram as vítimas dos detergentes, desinfetantes e dejetos humanos. Tudo isso acontecendo com o tal órgão gestor dentro da ilha. Uns pândegos.

Em janeiro. Final do conto: VII - SonhoVoltar