Julho de 2004

Fuga dos deuses

Imersa em meus devaneios, pisei em falso. Minha perna afundou no espesso colchão de gravetos e sujeira da última maré. Uma navalha de caco verde abriu a carne do meu calcanhar, até o osso, e me trouxe à nova realidade, dolorosamente como um parto na selva. Apesar do sofrimento observei, aérea e distante, no outro lado do monturo, um emaranhado de linha branca. Náilon grosso aprisionando o que podia, formando uma escultura deitada, surreal, com lixo.
Tinha garrafas de vidro e de plástico, sacos de ráfia, pedaços de isopor, cascas de côco, ovo, melancia e laranja. Lembrava corpos humanos destroçados. Guernica, de Picasso. Uma mensagem sub-reptícia? Um sinal de que meus poderosos inimigos não me deixariam em paz? Quem é que pode compreender estes jogos eternos.
Não estava acostumada ao meu corpo. A dor era algo que não sentia há muito, desde quando fugimos, meu marujo e eu, da ira dos deuses para Atlântida, protegidos por Posêidon. Sai mancando da caverna e encontrei, no final da prainha formada pela maré baixa, depois das pedras que encobriam a gruta, um homem que andava desajeitadamente. Estranha coincidência. Tinha o corpo mutilado. Uma doença de infância paralisou o crescimento de uma das pernas. Usava uma bermuda de calça jeans puída, esfiapada nos joelhos, por cima do calção. Nas costas trazia um violão. E agora? Devia me aproximar ou me afastar o mais rapidamente possível, apagando todos os vestígios?
Viu que eu estava em dificuldades e, sem pestanejar, abriu um sorriso automático e procurou ajudar-me. Gostei da atitude simpática. Formamos uma dupla bem esquisita, manquitolando pelo caminho e deixando um rastro de sangue até chegarmos a um barraco isolado na restinga.
- Ali poderia estancar a hemorragia, explicou numa das paradas para ganhar fôlego.
- Mas é preciso dar pontos.
Trocamos poucas palavras pelo caminho. Estudáva-mos um ao outro. Ele com sua perna direita fina, que precisava ser firmada com a mão a cada passo e eu com a perna recolhida, pulando feito Saci Pererê. Estou fazendo o mesmo percurso do meu marujo, pensei numa das paradas, só que no sentido inverso. Enquanto caminhávamos eu ganhava conhecimento, como se um computador estivesse ligado à minha cabeça.
Uma onda mnemônica invadiu minha mente e me deu memória passada e capacidade de comunicação e entendimento, como uma pessoa comum que, na flor da idade, tivesse terminado os estudos naquele ano. A comparação com um Saci me lembrou também um pedido do valoroso índio Tarobá, encarregado pelo próprio Tupã, ele e sua amada Naipi, de fazer da Terra o Paiquerê. Era preciso encontrar novos guardiães do espírito livre da floresta, lutar, somar forças, reconstruir a ligação respeitosa do homem com a natureza.
Meu marujo tinha o mesmo sorriso do estranho, reparei de soslaio pelo caminho e só me dei conta da enrascada em que estava entrando depois que me deitei na rede encardida. Me perguntava se, de alguma forma, por arte de meus inimigos, os dois não seriam um só. Um jogo de ilusões com vidas paralelas. Um aviso me atravessou a mente, vindo de algum deus amigo, com certeza: - Uma ninfa não pode se deixar ver ou ser tocada por humanos. Tem que matar o infeliz depois. A menos que pretenda servir à condição humana.
Resolvi tomar cuidado e não tocar em mais ninguém enquanto não conseguisse me desvencilhar daquela situação em que me meti. Quem toca uma ninfa, como fez meu marujo e agora o Ademar - como soube chamar-se depois, através do seu amigo barbudo, dono do barraco onde paramos - fica encantado, embora dificilmente perceba. Quanto a deixar-se ver, bem, também não é assim. Pode-se dar um jeito, raciocinei.
Eu tinha que me decidir logo. Trocar uma vida longa de semi-deusa por uma breve existência humana, uma incógnita, no meio de milhões de outras pessoas. Para quê? Lixo, miséria e poluição estavam no ar, sufocantes por toda parte, como uma planta parasita que devora e acaba com sua generosa hospedeira. Isso eu podia pressentir. Sabia que não queria matar um mosquito. Tinha a preocupação de um budista, com todos os seres.
O barbudo, com cara de poucos amigos, pareceu não se surpreender quando me encontrou em sua rede e viu um rastro de sangue no chão de madeira sujo. O Ademar havia saído há pouco para buscar ajuda. Concluí que não se encontraram pelo caminho. Nesse intervalo, antes do Ademar voltar com um maço de folhas verdes, conversamos um pouco com monossílabos e largos espaços de silêncio. O povo "de fora" - assim eram chamados os estranhos à comunidade de pescadores que vivia na ilha -, ali não era muito comunicativo. Nem educado, nem trabalhador. Falavam gíria e os cabelos eram compridos.
Jovens e despreocupados, gostavam de camisetas tingidas, com desenhos psicodélicos e roupas sujas de brim. No lugar do relógio, via-se pulseira artesanal. Os nativos eram mais amistosos. A maioria conversava com qualquer um, com a alegria contagiante de um náufrago resgatado em grande aperto.
- Depois eu limpo, disse, olhando para os pingos de sangue no soalho da sala vazia. Uma esteira estendida num canto da casa tinha como travesseiro um pedaço de espuma irregular, marrom e indicava ser ali a cama de alguém. Almofadões costurados e roupas femininas, já emboloradas, espalhadas pelo ambiente, denunciavam presença ocasional de mulheres. Três copos baratos de vidro, com tocos de cigarros e cinzas dentro, guardavam a cabeceira da esteira. Um outro copo, virado, servia de castiçal. No centro, um toco de vela que não daria meia hora de luz. A cera escorria para a lateral do copo e se esparramava pelo chão, feito lava.
Nenhuma resposta. O barbudo riscou um fósforo, acendeu o gás de um fogãozinho de duas bocas e, sobre a chama amarelada, colocou uma chaleira de alumínio. Passou para a chaleira, coberta de fuligem, a água que estava numa garrafa plástica, usada, de água mineral. A tampa da chaleira era limpa. A água vinha de uma bica, no final da Praia de Fora, me contaram depois.
-Pode crer. Respondeu de costas, levantando os ombros. Entendi que tudo estava bem. O barbudo saiu sem dizer uma palavra e deixou a única porta do barraco aberta. Era uma meia água sem forro, com duas janelas de venesianas, sem vidros. Não havia água encanada no barraco, nem banheiro. O vento, a lua e as estrelas podiam passar pelas frestas. Assim como cobras, lagartixas, morcegos e aranhas. Olhos curiosos também.
Vi um gato no areião parar de fazer cocô e correr assustado com a chegada do Ademar. Parecia estar alegre e de longe podia ouvir que cantarolava e assobiava.

Eta manguaçu danado
Que joga as flores no chão
Vento você é culpado
Da dor no meu coração
Me diga neste momento
Por que judia da gente
Vento mando um recado
Nas cordas do meu violão
Não seja mal educado
Peça a Deus perdão

Estava tentando compor uma música e era evidente que o trabalho estava incompleto. A mesma que dedilhava antes do nosso encontro na praia da gruta. Sonhava em ser cantor e foi parar na ilha, em busca deste sonho. Largou a cidade, sendo um dos primeiros "de fora" a sonhar na vila de Encantadas.
Outros artistas embrionários que viviam do violão na temporada, como Nego Black, vieram depois e se profissionalizaram. Violeiro não passa aperto, diziam os sonhadores.
- Ócio criativo, só na ilha. A lista dos artistas da vila se ampliou com o tempo. Eram projetos de poetas, escritores, atores, pintores, cantores, fotógrafos, escultores, etc. Um alfabeto inteiro de sonhadores.
Tinham que dar um duro danado para se manterem sonhando. O feijão e o sonho. Ganhavam fôlego se disfarçando de garçons, pedreiros, vendedores, marinheiros, donos de pousadas ou qualquer outra coisa que rendesse um dinheirinho e que se propusessem a fazer. A sociedade que queriam atingir não lhes dava crédito, obviamente.
Pegou as folhas verdes que trouxe e colocou parte delas numa panela tão preta quanto a chaleira. Voltou-se para mim e como se eu tivesse pedido uma explicação disse:
- É Espinheira Santa, mina. Cicatriza e assim ó, com açúcar, pára a hemorragia. Terminou de falar, virou-se em direção ao fogão e deu uma tremenda cabeçada num liquinho fixado no teto, no meio da sala. Com o choque a camisinha de pano do lampião a gás esfarelou-se. Não havia eletricidade, também.
- Aiiiiiiii. Gritou e imediatamente colocou a mão com as folhas na testa. Ia dizer um palavrão mas conteve-se diante da minha presença e disse: - Fiiiiiiiilha da gruta. Fiz menção de levantar-me mas o Ademar estendeu a mão livre espalmada em minha direção e arrematou: - Não, não se levante. Não é nada, meu. Ainda com uma das mãos no local da batida pegou um pano e abriu a tampa para ver se a água fervia. Depois pegou uma panela pendurada pelo cabo na parede, colocou na boca livre e, ainda com o pano, segurou a alça da chaleira e jogou a água fervente ali, juntamente com as folhas.
Enquanto ele fazia a infusão perguntei: - O que foi que você disse?
- Não esquenta. É prá não dizer um palavrão, saca. Coincidência novamente? Ou alguém estava a brincar comigo. Não entendi nada. Parecia que ele intuia algo. Resolvi investigar um pouco, mas piorei mais as coisas.
- Fazia tempo que você estava ali, na frente da gruta?
- Nas Encantadas? Umas duas horas, mina. Respondeu desconfiado, enquanto escorria a água verde, fumegante, num copo. Pegou mais folhas, abriu um pote de plástico à tôa e estendeu uma tira de pano sobre a pia. Aprontou o remédio caseiro e, aproximando-se, disse: - Tá. Pise aqui ó, e me estendeu o pano com as folhas para que eu o colocasse por debaixo do calcanhar ferido.
- Ei mina, de onde é que você veio? Deu-se conta de que eu tinha surgido do nada. O único caminho de acesso à gruta passava por ele. Ficou ali dedilhando seu violão, inspirando-se nas ondas. Mas não pensou muito no assunto. Afinal, era dia quando me encontrou e eu não representava perigo algum para ele. Só se fosse casado ou tivesse uma namorada. Eu era esbelta, bonita, perfeita, como deve ser uma sereia. Uma semi-deusa.
Antes que pudesse responder, uma cabeça apareceu na janela e uma boca sorridente desviou sua atenção.
- Bicho, Vô Lavínio qué ocê lá na praia, falô. O dono da boca falava rápido, meio gozado, num tom agudo. Quase não dava para entender o que queria dizer. Sem esperar resposta deu a volta e entrou na casa, mostrando intimidade. Estava descalço, usava um agasalho roto marrom e uma camiseta com propaganda. "Este é um País que vai prá frente", estava escrito sob uma bandeira estilizada.
- Sabe o que ele quer, meu?
- Ele qué falá cum ocê, morô. E em seguida emendou: - Tem goró? Não se importou muito comigo. Na verdade me ignorou. Estava mais interessado em beber. Tinha o rosto inchado, como se uma abelha o tivesse mordido. A cor da pele era macilenta, parecida com a da chama do fogão e, apesar de ser magro, tinha uma barriga proeminente. Igual a um pino de boliche. Era nativo e procurava imitar o linguajar dos "de fora".
- Pegue ali no armário, Douglas.
O armário era um caixote pendurado na parede e tinha duas portas inteiriças, fechadas a meia altura por um pedaço de madeira losangular fixado a uma ripa por um prego. A pinga estava na frente de pratos trincados, copos de vários tamanhos e enlatados sem rótulo. Uma barata antenuda vigiava o movimento do fundo do armário tosco, pronta para escapar.
Douglas encheu um copo inconfundível de massa de tomate, deixou a garrafa de Andorinha sobre o tampo, deu um gole generoso na cachaça e, com o copo na mão, grunhiu satisfeito.
- Aaaaaaaaaaaaaaa. Viu a barata mas nem ligou. Fora de perigo, ela sumiu pela fresta nos fundos do armário tosco.
Bebericando, enchendo o copo e lançando olhares furtivos, Douglas foi ficando. Não trocamos uma palavra. Percebi que ele era do tipo tímido com as mulheres. O Ademar não foi ao encontro do Vô Lavínio e, na boca da noite, Vô Lavínio acabou entrando no barraco. Vestia um surrado pulôver de lã marrom, tinha um gorro azul na cabeça, olhos da mesma cor e os bolsos largos da calça cinza de algodão eram rasgados na costura.
Reparei nos seus pés brancos, descalços. Eram achatados, rachados no calcanhar e cheios de buracos de bichos de pé arrancados a agulha. Era um dos nativos mais velhos do local, como o Tatá, pai de Douglas.
Tatá descendia de escravos fugidos e, aos 11 anos, viu surgir na praia os destroços de dois navios de madeira, após memorável ressaca. Um apareceu na Praia de Fora e outro adiante do Cemitério. A ressaca revirou o fundo do mar e tirou alguns metros de areia da praia. Havia chumbo na quilha dos navios. A novidade se espalhou e os pescadores que chegaram primeiro tiraram quase tudo para fazer chumbadas.
Antes de entrar no barraco Vô Lavínio encostou na parede, ao lado do batente, uma vara de bambu com uma sardinha pendurada no anzol. Provavelmente iria usá-la no outro dia. O bornal encardido, cheio de manchas oleosas, pôs no prego para os sacos de lixo.
- Boa noite, se me dão licença. Sorria, gentil, de pé no meio da sala, como se estivesse esperando um convite para sentar. Foi falando, se dirigindo a todos: - Hoje a pescaria não foi muito boa pros lados da Nhá Pina. O vento virou para leste, não é bom. Atrapalha. O peixe não encosta na pedra.
Ia continuar, mas o Ademar o interrompeu, sem paciência. O copo barato, de propaganda de massa de tomate, cheio de pinga, estava agora em suas mãos.
- E ai, Vô? Ninguém dava a mínima para as cerimônias de apresentação. Vô Lavínio coçou calmamente a cabeça e estendeu a mão para o copo. Maquinalmente Ademar passou o copo. Vô deu um golinho e devolveu a pinga. Sem fazer careta, disse: - Recebi um recado que estou passando como escutei. Falava tranqüilo e punha prazer naquilo que dizia.
Transformava a conversa banal em poesia pura. Era um artista experiente na arte de conversar. E sorria muito, mostrando os dentes amarelados que sobraram da juventude pobre, longe dos recursos da cidade. O dentista mais próximo da ilha ficava no fundo da baía, há umas duas horas de barco. A ilha guardava a entrada da baía. Tinha até um forte com canhões. Bem perto, no canal norte, passavam os navios estrangeiros que se dirigiam ao porto. Espertos, levavam nossa areia monazítica como lastro, de graça. De vez em quando limpavam seus porões, manchavam de óleo nossas praias e matavam nossos peixes. Pagavam multas e eram liberados.
Uma vez um deles foi acusado de jogar mercúrio na baía. Os pescadores ficaram em casa, sem fazer nada, por um bom tempo. Teve gente que comeu gato por lebre, reforçando a dieta precária de charque com farinha e água com açúcar. Sem o peixe diário, tiveram que se submeter. A ajuda não veio. Nunca vinha. Perdia-se nos corredores da corrupção e burocracia.
As autoridades não gastavam com comida para os outros. Gastaram os recursos humanitários em panfletos rodados numa gráfica que topou fazer acerto. Os panfletos explicavam que o mercúrio era um veneno para o organismo humano. Ia parar no peixe e este, comido, transportava o veneno para dentro do corpo. O organismo humano não elimina o mercúrio, só acumula. Uma taxa alta leva à hidrargiria, provoca alucinações, angústia, vertigens e paralisia dos nervos, diziam as letras tipográficas pretas em fundo branco.
Ninguém sabia o que era hidrargiria mas era assim que o panfleto explicava o problema a pescadores analfabetos. A fome também provoca alucinações, angústia, vertigens e paralisia em pais que não conseguem mais sustentar sua família, murmuravam os descontentes.
- Alguns se entregam e viram marginais, por falta de opção, criticavam a boca pequena. Eram tempos difíceis. As paredes e pedras tinham ouvidos delatores em toda parte.
- O cumpadre Agripino quer muito falar com o senhor. O assunto não disse e não perguntei. Me falou isso hoje mesmo, antes que eu fosse buscar o rango. Algumas das gírias usadas pelos "de fora" já estavam incorporadas ao vocabulário do Vô.
Bebericou de novo, devolveu o copo enquanto falava e, voltando-se para mim, puxou conversa.
- Como é a graça da senhorita? Via-se logo que era muito cuidadoso com as palavras proferidas e, passando dos 60 anos, sem a malícia dos jovens conquistadores. Costumava dizer que o mal é o que sai da boca. Como muitos dos nativos, mal sabia ler ou escrever, mas tinha o saber que não era transmitido por escolas ou diplomas. Quando voltava da pesca, sem peixe, dizia bem humorado:
- A pescaria foi um fracasso inabalável, mas valeu a caminhada.
Aproximou-se da rede e encostou um pé na parede. Douglas pegou o copo vazio e tornou a encher.
- Miô, disse, mostrando a garrafa vazia de Andorinha. Não havia me preparado para as enrascadas em que poderia me meter nesta minha chegada quase partindo. As coisas estavam se complicando, pensei, angustiada. Devia ter ficado atrás do espelho, no vácuo habitado pelas identidades luminosas. Devia ter ouvido as recomendações dadas aos que se aproximam das bolhas entre mundos, me recriminava.

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