Dezembro de 2004 - Parte II
Passava do meio-dia quando cinco mulheres, duas com filho pequeno no colo, chorando, chegaram no barraco. Meia dúzia de piás acompanhava o cortejo. Guaraqüeçaba, que já era uma espécie de líder, saiu e perguntou se o dono da cerca tinha chegado. A mais exaltada das mulheres, uma gordinha de peitos fartos e pés descalços, que tinha que andar mais um pouco por causa da cerca, até chegar em sua casa, respondeu que não, mas que os empregados dele estavam lá.
- Temos que falar com ele, não com os empregados, disse Guaraqüeçaba, num tom persuasivo.
- Qué dizê então, que vamos dar volta enquanto o beleza não chega? Falou a exaltada, frisando bem o beleza no seu linguajar peculiar, como se Guaraqüeçaba fosse a culpada de mexerem no seu caminho.
O tempo podia fechar e alguém sair machucado, se a situação não fosse bem administrada, pensou. Vai que os capangas dessa gente da cidade estejam armados. Sabia que os provocadores, mulheres e crianças, iam na frente quando algum problema surgia. Caso fossem agredidas, vinham os homens e o pau comia.
As mulheres em grupo, nervosas e dispostas à luta, eram um perigo. No entrevero dos barcos, a mulherada ficou na praia, não deixando ninguém se aproximar. Durou o dia todo. Turistas que tentavam sair das bateras eram recebidos a pauladas. Quando se sentiam seguros, xingavam: - "indiarada louca".
Guaraqüeçaba não entendia por que chamá-las de "índias" era considerado um insulto. Só os barqueiros conhecidos podiam chegar na praia e desembarcar seus passageiros. A disputa era pelo incipiente mercado da travessia.
Uma empresa legalizada, do continente, queria exercer o seu direito de transportar turistas mas teve que recuar diante do vespeiro. Os nativos se legalizaram mais tarde e ganharam suas linhas, no pau. O mercado acomodou-se depois dos acordos.
Os barqueiros do centro da Ilha cuidariam de levar e trazer os seus turistas. Os das Encantadas os seus e o Biba era o único do continente que levaria passageiros para a Ilha. Nas Encantadas ele não pôde trabalhar por um bom tempo. Eram seus os barcos que a mulherada não deixou atracar.
Guaraqueçaba participou ativamente desta outra encrenca, do lado dos nativos e ganhou respeito por impedir que a polícia chamada atirasse nos manifestantes. Um soldado mais nervoso puxou sua arma e apontou para a multidão. Guaraqueçaba desviou o tiro no momento exato.
Atracou-se com o soldado. Um outro veio por trás e acertou-a na cabeça, com o cassetete. Desde esse dia ela caiu nas garras do rancoroso Alaor.
- Vejam quem é esta comuna. Vigiem ela de perto, determinou.
Tentei acalmá-las, sem sucesso. Os ânimos já estavam exaltados quando o pequeno grupo de guerra marchou para a área do conflito, pegando porretes. À medida que avançava ia ganhando mais adeptos. Não houve conversa. Os funcionários do dono da cerca desapareceram providencialmente.
As mais fortes agarraram um dos palanques e o deitaram ao chão em minutos. Foi como um dominó. As outras, todas gritando que "eles iam ver" quem mandava no pedaço, puseram abaixo os palanques e arrancaram os arames. A piazada atirava pedras no telhado. Um bêbado surgiu e incitou a massa a "tacar fogo" na casa.
As mulheres, em pose triunfal, comemoraram a 'vitória' na praia, logo que a cerca caiu. Guaraqüeçaba só olhou o protesto, derrotada. Sabia que derrubar a cerca não ia resolver o problema. Era muito racional, racional até demais. Enxergava muitos lances à frente, como no xadrez. A raiz do problema estava na compra e venda dos lotes.
Deixaram o bêbado falando sozinho, para fazer o que bem entendesse. O bêbado esvaziou o resto da garrafa que levava num gole e atirou-a na janela, para demonstrar sua solidariedade ao grupo. A piazada passou a usar a varanda da casa como latrina, sempre que podia. Era sua maneira de dizer que mantinham o desprezo aceso.
Uns anos depois, quando se iniciava a discussão da chegada da luz, a casa foi vendida e o novo dono teve o cuidado de entrar num acordo rentável para os vizinhos. Não houve insurreições contra a nova investida e as bocas-de-leão se encarregaram de encobrir o arame já enferrujado.
Ninguém mais se incomodava com as cercas dos outros, depois que alguns nativos tiveram sucesso com a venda de lotes, apesar das proibições. A grana recebida era a garantia de um inverno mais tranqüilo para a família, com comida na mesa. Agora eles mesmos se encarregavam de defender suas cercas, para garantir as posses e quem atravessava o quintal de alguém era visto como um intruso.
Houve uma corrida dos nativos e alguns dos "de fora", para segurar terrenos. No processo de vendas desenfreadas que se seguiu, até homens armados foram contratados para vigiar uma grande área, de frente para o mar, metade comprada a preço de banana e a outra metade grilada. Eram jagunços do Norte, corria a boca pequena, contratados por um especulador do mercado imobiliário, ligado à repressão e ao delegado Alaor.
A maconha corria solta no verão, quase que livremente entre os jovens. Os nativos mais velhos, assim como Guaraqüeçaba, condenavam a droga. Discordavam de Guaraqüeçaba quando ela dizia que o álcool e o cigarro eram mais mortais. Alguns pais não ligavam em pedir para crianças acender seus palheiros e outros chegavam a molhar a chupeta na pinga para fazer o bebê dormir. Guaraqüeçaba era contra o costume e alertava para que não pedissem para as crianças irem comprar cigarros e pinga. Eles riam da preocupação dela.
Impotentes, viam a maconha avançar entre adolescentes nativos, que não ouviam mais os seus pais. Imitavam tudo que vinha de fora, mais coisas ruins que boas. Não tinham mais interesse pelo mar. Guaraqüeçaba ficava possessa com os bêbados e drogados que, paradoxalmente, se alimentavam com arroz integral e não ingeriam açúcar refinado, nem carne vermelha.
- Faz mal à saúde, diziam.
As prisões que ocorriam uma vez ou outra, eram, em sua maioria, apenas de pobres usuários. Logo voltavam, se vangloriando da prisão. Os ricos não eram presos. Levada por "gente fina", "sangue bom", a cocaína começou a se popularizar entre os freqüentadores da ilha, que não se incomodavam de compartilhar a mesma seringa nos picos. Muitos não sobreviveram para ver o ataque às torres gêmeas, no outro século, dizimados pela imprudência. Era a AIDS.
Uns traficantes pegaram cana braba, como o Espanhol. Fugiu do Ahu e foi morar nos Estados Unidos. Bicho morreu na cadeia local. Seu sonho era ir para o Carandiru.
Dizia-se que policiais ligados ao delegado Alaor controlavam o tráfico na ilha e que a repressão prá valer, do delegado, era contra os comunistas terroristas. Os turistas, endinheirados ou não, descobriam o drogódromo praticamente liberado e, a cada verão, a fama aumentava. As hordas de mochileiros que chegavam, atraídos pela liberdade de poderem fazer o que quisessem, davam a dimensão da propaganda boca-a-boca.
Encontravam-se pelas BRs, principalmente a litorânea 101 e trocavam informações. Pular Teófilo Otoni era uma dica boa, me disse o Joaquim, quando fomos conhecer o nordeste de carona. O delegado da cidade se divertia cortando o cabelo dos hippies cabeludos, pegos às margens da estrada. Mandava a viatura para a estrada quando queria promover seu showzinho.
Vinha gente de Arembepe - Janis Joplin esteve lá -, Morro São Paulo, Canoa Quebrada, Trancoso, etc. Só lugares de difícil acesso. Depois, quando a televisão "descobria" estes lugares perdidos, o turismão tomava conta. Chegaram a asfaltar dunas que impediam acesso fácil a Canoa Quebrada, para dar passagem a ônibus lotados de velhotes endinheirados.
Ficavam nas janelas dos ônibus de turismo, observando velhas rendeiras na porta dos casebres, sentadas no chão de terra, aproveitando a luz do sol para bordar.
- Lá só tem maconheiro, diziam os pais a seus filhos, quando não queriam deixá-los ir a um dos paraísos hippies.
Por esta época divulgava-se a idéia da criação de uma Associação dos Moradores, para conter os abusos na ilha. Com a droga veio o furto, estupros e assaltos nas trilhas escuras. Guaraqüeçaba, que descobriu-se anarquista, virou principal defensora da criação da Associação.
Acreditou na idéia de uma Associação em defesa da comunidade. Foi dedurada pelos "secretas do Alaor", que era como o povo se referia aos três capangas parrudos infiltrados nas Encantadas para vigiá-la, sempre de óculos escuros. Foi presa pelos "home" e levada algemada até o delegado Alaor, que não escondeu sua satisfação em vê-la humilhada. Foi logo mandando que Guaraqueçaba tirasse a roupa e, pessoalmente, deu-lhe uns "telefones" e choques elétricos nas partes íntimas. Antes propôs que ela saísse da ilha, largasse tudo e fosse morar com ele no Porto, que ele ajeitava as coisas. Montava uma casinha para ela no Rocio.
Guaraqüeçaba não topou. Quando saiu da cadeia, grávida, sem saber por que tinha sido presa, torturada e estuprada por três gorilas encapuzados, durante meses, soube que o governo queria transformar a ilha numa área de preservação. A criança não chegou a nascer. A estrada principal de acesso seria asfaltada até o pontal, no continente, diminuindo em uma hora o percurso. As idéias pululavam. Era o progresso chegando de roldão, afetando o modo de vida de quem praticamente não precisava dos grandes centros para sobreviver.
A maioria dos casebres tinha cobertura de palha e chão batido, com um pequeno fogão a lenha em seu interior. Viviam da pesca e do escambo no mercearia-bar. O peixe era a moeda de troca para a pinga dos homens e os mantimentos da família. Os filhos adultos não tinham dificuldades de levantar seu próprio barraco, quando montavam família. Terreno tinha de sobra e era só roçar para ser dono. Os outros respeitavam. Tinha que pagar uma taxa para o Serviço de Patrimônio da União.
Redes e canoas eram comuns na praia, assim como os arrastões no inverno. Um deles, na parte deserta da Prainha, perto das pedras, ficou famoso. Pegaram tanta tainha que tiveram que abrir um buraco na areia e enterrar as que não puderam vender a tempo.
- Mais de 50 mil quilos, apregoavam os exagerados, quando o feito era lembrado. Esta foi a última redada boa que se teve notícia.