Outubro de 2004 - Parte II

Paraíso da Fumaça

- Que animais!!! Exclamou Guaraqüeçaba, em voz alta, terminando de ler uma reportagem sobre a extinção dos Carijós. Era um jornal alternativo de três meses atrás, levado às escondidas por um estudante barbudinho, de Curitiba, no último feriadão da Semana da Pátria.
Indignada, foi até o quarto do casal. Uma cortina de taquara cortada em fatias, intercalada com conchas e sementes, separava a copa-sala-cozinha do quarto.
- Não sobrou um para contar história!!!
- Queime este jornal, eu já te falei, disse Ademar, enrolado nas cobertas. Viviam juntos há alguns anos naquele barraco, no cachetal. Ademar dormiu tarde e não queria iniciar uma discussão filosófica. Conhecia bem aonde levavam aquelas frases ganchos de Guaraqüeçaba. Puxavam discussões intermináveis sobre qualquer assunto. Gostava mais dos ligados ao meio-ambiente. Quando ela mexia no seu colar de sementes, era sinal claro de irritação.
Ainda sentia gosto de vômito na boca. Não devia ter misturado porradinha com cerveja. Ainda por cima quente, pensou. A cabeça latejava. A bebida, pinga com coca num copo tampado com uma das mãos e batido no joelho, foi inventada por algum hippie na década de 70.
- Mataram todos os Carijós, não existem mais.
- Mas como é que pode?
- Isso ai já era, mulher, pode crer. Como os dinossauros, os dentes de sabre, os mamutes e os peles vermelhas.
- Se os "home" pegam este jornal esquerdista, vão complicar a gente.
Os "home", eram os agentes do Serviço Nacional de Informações - SNI, que sustentava uma rede de informantes no país. Dizia-se que tinha um infiltrado em cada sala de aula. Quem caísse nas garras das siglas, SNI, DOPS, DOI-CODI, CIE, PIC, CCC, etc.., estava fudido. Com sorte pegava um IPM (Inquérito Policial Militar), mesmo sendo civil. O jornal não era esquerdista, mas era visivelmente contra o governo militar que estava no poder. Um governo com prazo de validade vencido.
- Antes que eu esqueça, preciso anotar uma letra, disse Ademar. Rabiscou a lápis uma letra de música composta na noitada com os amigos de bebedeira.
- E aí, você vai junto tirar o arame? Preocupou-se Ademar, mudando de assunto, enquanto se levantava e guardava o papel. Passou a noite na farra, bebendo e compondo com amigos de Londrina.
- A musiquinha tinha grudado na sua cabeça.

Ó pescadinha, o salgo mandou dizer,
Que o robalo da pontinha, tá gamado em você....

- Lembre-se que o Agripino disse que uns sujeitos esquisitos, em uma Veraneio, gente do delegado Alaor, perguntaram sobre nós no Porto. O nós, na verdade, era uma mentira. A temida guarda pretoriana tinha perguntado por ela.
Alaor era um crápula que gostava de torturar os "seus" presos. Delegado calça-curta sem futuro, cresceu no novo regime denunciando inocentes irresponsavelmente. Vizinhos da delegacia nem reclamavam mais, quando não podiam dormir, por causa das sessões de espancamento desabridas que promovia, na certeza da impunidade. Um deles, coitado, ousou queixar-se ao juiz da cidade, que tinha ligações profundas com próceres do regime. Zé da Pontinha, o chamavam. Foi capturado em casa, de madrugada. Entrou aos empurrões numa Veraneio, algemado e com um capuz na cabeça. Nunca mais foi visto. Desconfiava-se que uma ossada encontrada na serra, lugar de desova do Esquadrão da Morte, seria o que sobrou do Zé da Pontinha.
A família já estava longe quando bate-paus do Alaor encontraram, "casualmente", a tal ossada.
- Já disse que vou, respondeu Guaraqueçaba, ainda irritada. Esse turista não pode chegar aqui e ir botando arame farpado no caminho. Alguém pode se machucar à noite, uma criança.
Chamar alguém de turista, conforme a ocasião, era pejorativo. Sinônimo de bobo. Os "de fora", que já estavam integrados à comunidade, não gostavam quando eram chamados de turista. Desfrutavam de alguns privilégios dos moradores, como não pagar a travessia quando o barqueiro o reconhecia e pendurar contas.
Além dos nativos e dos "de fora", havia um grupo a parte de pessoas, no lugarejo das Encantadas, chamados de "malárias". Eram declarados viciados, autoproclamados guerreiros-piratas da sociedade, que chegavam na primavera e só iam embora do "Paraíso da Fumaça" no outono. Dormiam em qualquer canto e viviam pedindo comida, cigarros e bebidas.
Não faziam mal a ninguém - a não ser a eles mesmos - e, a princípio, eram bem vistos pelos nativos mais simples, que lhes deram abrigo até meados da década de 80. Suas palhaçadas arrancaram risos por um tempo mas, depois, cansaram e só enchiam o saco nos bares e no forró. Quando um deles se aproximava, escondia-se o fumo e a bebida. Às vezes ficavam dias com os olhos esbugalhados, a mesma roupa suja, cabelos desgrenhados e sem comer. A maioria magérrima. Gostavam de ler Castañeda e suas experiências com plantas alucinógenas, aprendidas com os índios yaqui, do México. Aldous Huxley também.
Meia dúzia de "malárias" sobrevive na Ilha, décadas depois do Festival de Woodstock. Aquilo foi três dias de "desbunde", como se dizia. Raulzito, com sua Maluco Beleza, tornou-se o cantor preferido da turma. Um caso engraçado, ocorrido com um grupo de "malárias", é lembrado por um dono de pousada até hoje. O Polaco, na época malária-turista.
A costela estava quase no ponto quando os assadores resolveram sair para tomar uma cerveja. Ninguém ficou cuidando da carne. Podia-se ainda deixar janelas abertas e coisas na praia ou na barraca, que ninguém surrupiava. Quando os assadores voltaram, deram de cara com o grupo do Ernani, na maior felicidade, lambendo os ossos. Mais tarde, talvez com base neste fato, Gabriel criou um vanerão bem ao gosto dos nativos, com a música Malária. O trecho da costela é este:

Onde tem um churrasco, um cheiro de comida
Ali mesmo eu encosto e serro uma bebida

Ernani também é o autor da memorável frase "se o sonho acabou, dona Maria faz mais".
O caso do arame cercando uma propriedade particular nas Encantadas era novidade. A posse da terra era comum à maioria dos moradores, nesta época, assim como as poucas cabeças de gado e a roça de mandioca no morro. Somente as casas eram individuais. Quando muito, as divisas eram demarcadas com boca-de-leão. Eram fáceis de plantar, em tocos fazendo um xis e pegavam rápido.
A maioria seguia o costume e ninguém se incomodava com gente passeando pelo quintal. O terreno em questão foi comprado recentemente e o dono, um sujeito considerado rico e prepotente, mandou cercar o perímetro com oito fios de arame farpado, quebrando a tradição das cercas vivas. A cerca trancou os caminhos de algumas famílias de caiçaras e há dois meses era o assunto predileto no principal bar e mercearia. Era o único que abria todos os dias do ano.
Tinha duas portas de frente para o mar, para atender os fregueses dos secos e duas laterais, por onde entravam turistas e pescadores, em busca dos molhados. Um balcão em "L" marcava o território do comerciante, que monopolizava a compra dos peixes, colocando-os em grandes isopores com gelo. Os "nativos" entravam pela porta lateral dos fundos e os "de fora", pela outra porta lateral. Uma divisória de madeira, da altura do balcão, se encarregava de segregar as alas.
No verão, o turista que tinha mais amizade com algum pescador fazia questão de entrar pela porta dos fundos e ser visto bebendo na companhia deles. Era motivo de orgulho e um sinal de que pertencia à tribo. Ao perceberem a utilidade da amizade, principalmente no forró, quando começava uma briga, alguns turistas passaram a pagar bebidas, para ganhar a confiança dos nativos e ter proteção. Os que se achavam mais espertos, com o tempo, tiravam partido do medo dos turistas, intimando-os a pagar uma nos forrós do Benjamin e dos irmãos João e Ernesto. Muitas brigas começavam por ai.
O reclamante que se recusava a pagar uma sempre levava a pior, mesmo coberto de razão. A irmandade caia em cima do infeliz. Uma injustiça que só Guaraqueçaba se rebelava, tentando provar que as injustiças eram todas iguais e a lei era igual para todos. Uma lunática, pensavam. Riam dela às escondidas. Mas além das brigas todos contra um, iniciadas por bebedeiras, tinham casos que terminavam bem.
Uma vez, depois de atravessarmos o canal a remo, tomamos com o Nilton e o Walter um porrete memorável na ala dos "de fora", com cerveja quente tirada do engradado. Só uma, das cerca de 30 casas das Encantadas, tinha geladeira a gás. Um luxo. Era a "Casa Preta" de um turista, engenheiro.
Chegamos à tardezinha no "Secos e Molhados", saindo por volta da meia-noite, depois da chuva. O lampião estava apagado quando o dono do principal bar-mercearia abriu a primeira garrafa.
Não houve briga, para desconsolo de alguns, que apostavam que o Norinho, depois de tomar umas, ia arrumar encrenca. Apagou-se antes. Na volta para o barraco do alto do morro, o Walter vinha na frente. Iluminava a trilha com uma vela dentro de uma garrafa plástica. Escorregou no caminho liso, quase no topo, caiu e derrubou todo mundo que vinha atrás. Rolamos até a planície, derrubando pés de bananeira, café e palmito novos da rocinha do Tatá.
Pensa que ele saiu com o facão na mão ou cobrou o prejuízo? Divertia-se espezinhando-nos, sempre que podia. Escutou tudo da sua cama, no pé do morro.
- Perdi o meu relógio, dizia um, e partia-se de rir.
- Cadê minha sandália? Dizia outro, e gargalhava. Depois de várias tentativas e cenas cômicas, atingimos o barraco, conta o Tatá. O relógio do Nilton nunca foi encontrado. As havaianas ficaram na porta do armazém. A vela foi encontrada.

Em novembro: V - Vitórias e DerrotasVoltar