Agosto de 2004
Olhei para um mapa na parede e escolhi um nome ao acaso. Não podia usar o meu próprio, Teixieme. Calculei que soaria estranho para a época.
- Meu nome é Guaraqueçaba.
Os três voltaram os olhares ao mesmo tempo para mim. Vô Lavínio, com seu jeito peculiar, tornou a perguntar, como se não tivesse entendido.
- Como é mesmo a sua graça, senhorita? Vô nunca perguntava direto "qual é o seu nome".
- Guaraqueçaba disse, desta vez bem devagar, para ganhar tempo pensando num sobrenome, caso perguntassem.
Mas por que o espanto? Por um momento eles me olharam como se estivessem vendo uma sereia. Depois ficaram quietos e quem quebrou o silêncio foi, novamente, Vô Lavínio.
- É um nome bem bonito. Tinha aprendido a mentir por educação. E diferente. Seus pais são índios? A pergunta era inteligente. Eu não tinha aparência de índia, muito pelo contrário. Mas a esta altura os três já estavam sob o efeito da Andorinha. Vô Lavínio por causa da idade avançada, apesar de ter bebido pouco. Ele estendeu a mão rugosa da maresia, usada para criar cinco filhos, puxando rede.
- Muito prazer. Vô Lavínio, a seu serviço. Vai ficar muito tempo, senhorita?
Ainda bem que não perguntou o "de que família"? Esqueceu, desta vez. Tinha aprendido o costume com turistas do Forte, que usavam a ilha como balneário e sempre perguntavam isso quando mantinham conversa com quem não conheciam. Parecia ser importante, tão importante quanto perguntar se o peixe era fresco, com o bicho ainda se debatendo no fundo da canoa. Também perguntavam as horas, quando sabia-se que não tinham nada para fazer. Dar a impressão de gente muito ocupada também parecia ser importante para eles.
Vô Lavínio escorregou pela parede e ficou de cócoras. O Ademar estava esticado na esteira, tinha a cabeça apoiada no cotovelo e um galo na testa. Douglas, a esta altura, quase cochilava afundado nos almofadões. Mal levantava a cabeça e prestava atenção à conversa.
- Vou embora amanhã, disse sem pensar.
Não respondi a primeira pergunta. Fui obrigada a apertar sua mão e uma vida de franciscanas privações, se exaurindo, passou por mim como um choque elétrico.
Nasceu no fundo da baía, num lugar chamado Curraleiro, que nem existe mais. Um lugar cheio de árvores aranhas, colado com extensos manguezais, na foz do Rio Maciel.
Comparações pulsantes vinham à mente, sobrepostas, confusas, reais, imaginárias. Descargas de energias que iam e vinham, temporais, atemporais. A relatividade de Eistein. Se vemos estrelas que não existem mais, o contrário também é possível? Não vemos, mas existe. Isto é possível? Aquilo que não vemos, que não vivemos mais, o passado e o futuro, podem ser tão reais quanto o presente, em uma dobra do tempo? Tudo depende do ano-luz certo, para que um dos nossos sentidos percebam algo? A massa vira energia. Energia pode virar massa? Curraleiro poderia ser a Canudos do litoral, em escala menor. Poderia. Povo paupérrimo. Desaparecidas como Sete Quedas. Deve ser triste se nascer num lugar que depois não existe mais. Atlântida não era triste.
A mulher o abandonou... igual a do Antônio Conselheiro, que se chamava Antônio Vicente Mendes Maciel. Mas ele não saiu por ai como um pregador fanático. Antônio Conselheiro foi um hippie. Tentou implantar uma comunidade hippie no sertão da Bahia. Vô Lavínio não foi acusado de pregar doutrinas subversivas, prejudicando a religião e o estado. Antônio Conselheiro não foi parar num hospício por falta de vaga. Rebelou-se contra taxas instituídas pela república, trabalho escravo e a miséria do sertão. Por isso era um louco?
Um dos guardiões pedidos por Tarobá era ele. Longe das necessidades humanas poderia viver feliz com sua amada. Só energia, sem preocupações materiais. O mesmo já tinha acontecido no caminho, com o Ademar. Do passado recebi boas vibrações. Seu problema era o futuro, que poderia ser passado ou não.
Nisso eu podia contribuir, se quisesse, se me decidisse de uma vez. Tinha seus 20 e poucos anos, a maioria vividos na cidade ligada ao porto por uma serpenteante estrada de ferro, atrás das montanhas. Era um dos "de fora" que pegava sol pelado na Praia de Fora, como faziam os Carijós, já extintos. Os civilizados deram cabo deles.
Pescadores descendentes das tribos remanescentes agora passavam assobiando, de longe. Os papéis se invertiam. Se incomodavam com os jovens nudistas. Era um sinal para que cobrissem "a vergonheira", quando passavam vestidos, na praia.
Preciso resolver logo isso, antes que saia do controle, pensei. Vô Lavínio tremeu. Aquele contato de mão tinha algum significado, intuiu sua sabedoria de velho pescador atento às mudanças da natureza. Não deixei que ele mergulhasse em meus olhos.
- A Terra precisa de novos guardiães, sussurrou em meu ouvido um invisível e alegre Tarobá, aquele que abriu a trilha da felicidade (Peabiru) até a Gruta das Encantadas. Me deu as boas vindas com a alma pulando de contente.
- Uma alma passou por aqui e me deixou arrepiado, senhorita. Arregaçou as mangas e mostrou os pelos eriçados. A senhorita me desculpe mas vou me retirar. Tá ficando escuro e hoje não tem lua pra alumiar. Moro perto das ruínas do antigo convento, justificou-se. Deu boa noite, despedindo-se. Se deixasse o cabelo crescer e andasse com um cajado, poderia ser confundido com o Antônio Conselheiro da literatura. Ou um hippie. Mas este, na realidade era pardo. E aqueles contestavam a sociedade de consumo, pregavam a volta da sociedade comunitária, o pacifismo, a liberdade sexual e experiências com drogas.
À passagem do Vô para a porta o Douglas entreabriu os olhos e fixou-os nos pés que pisavam o soalho. Ao pisar sobre o sangue já coagulado - ninguém se deu ao trabalho de limpar -, Vô Lavínio fez as manchas desaparecerem. Mas nada percebeu, impressionado com o forte arrepio.
Douglas voltou a fechar os olhos e, já bêbado, enrolou a língua pensando que nós compreendíamos que tinha visto o visível oculto acontecer.
Antes de morrer, Vô Lavínio já era uma lenda. Nunca precisou agredir a natureza para viver. Até o lugar em que nasceu foi tomado pela vegetação e pela água.
O Ademar ainda estava acordado e brincou.
- Vai pela sombra Vô. Hoje é dia do jesuíta pintar.
Decidi ficar. Na verdade era isso que meu subconsciente insubordinado me dizia todo o tempo. Reforçado com os pedidos soprados em meu ouvido pelos mitos indígenas. Tarobá, Naipi, Iara, Saci Pererê, etc. Todos davam boas vindas e me pediam para ficar. Mas o preço a pagar era muito alto, isso eu sabia.
Continuamos a conversar normalmente e antes que o Agripino, um pescador forte que seria enterrado com sua canoa Corisco, no cemitério local, atrás da Fortaleza, entrasse na casa a procura do Ademar, contei a ele quem na realidade eu era. Tinha que contar para alguém. Talvez, de alguma forma, minha história se preservasse na memória dele. Dali a pouco eu mesma não me lembraria de mais nada. Esquecer tudo era parte do castigo. E eu seria castigada no futuro, não tinha ilusões. Mas nada me faria mudar de idéia. Nunca matei ninguém e não ia começar agora.
Contei como meu destemido marinheiro viu seus companheiros irem embora. Contei como sentiu a dor da solidão e muito medo até guiar-se pelo nosso cântico, vindo do fundo da gruta. Contei como ele ficou maravilhado e a lenda que nosso encontro deu origem. Que tinha me apaixonado à primeira vista e atraído a fúria dos deuses. Nossa fuga para Atlântida.
Não disse nada sobre os novos guardiões pedidos por Tarobá e que Vô Lavínio era o primeiro escolhido.
- Depois que encontrou o portal da gruta ele ficou extasiado a nos olhar, relatei.
Sonolento e bêbado o Ademar fingia estar interessado. Mal podia abrir os olhos. Douglas já roncava.
- Rodopiávamos nuas, cabelos longos, sobre a fina areia...O marujo fixou o olhar em mim e me deu a mão, relembrei.
Temendo por sua sorte, disse a ele: - Tens de partir, homem estranho. Gostei de ti, mas tens de partir. O marujo até então desconhecido entendeu as palavras, apesar de lhe falar na língua nativa. Apaixonado à primeira vista, também, respondeu: - Nunca! Jamais arredarei os pés de perto de ti, meu amor! Permite-me, por Deus, gozar de teu carinho e da tua eterna companhia nesta ilha de mel. - Para que venhas comigo, é preciso que morras. Se tu aceitas, te convido. Vem, meu doce amor! A fonte doce da vida nos chama. Partamos sem mais demora.
De mãos entrelaçadas, entoando o cântico do adeus para todas as ninfas, lentamente começamos a caminhar mar adentro. Um redemoinho nos levou ao fundo, para vivermos na Atlântida submersa o mais puro e lindo amor. Com uma ajudinha de Posêidon, nosso protetor.
Contei sobre a lei das sereias, que tinham que morrer, caso alguém não sentisse seus feitiços. Como castigo pela minha audácia, minhas desprotegidas irmãs viraram pedras esculpidas. Por ironia, uma com o rosto de um Chinês, atrás do Morro Careca e outra parecendo um Gorila de sorriso congelado, na entrada da Gruta das Encantadas.
Dai em diante, disse, a gruta ficou solitária. O portal, que dava passagem para o visível e o invisível, o tonal e o nagual, foi lacrado. Os tucanos foram os primeiros a deixar a ilha e só voltariam quando o portal fosse reativado.
Doenças horríveis começaram a surgir com freqüência, dizimando cidades e povoados inteiros. Peste Negra, Gripe Espanhola, Aids e Gripe Asiática. Comida da flora e da fauna, como palmito, mariscos e peixes, antes abundantes, escassearam. A terra dividia-se em lotes sem vida. A água e o oxigênio, vitais para todos, entraram em desequilíbrio, perdendo espaço para a poluição. As geleiras, última reserva de água potável, diminuem ano a ano. O calor aumenta. Efeito estufa. Rompimento da camada de ozônio. Tufões na América do Sul. Boatos de que uma onda gigante varrerá a costa se avolumam. Soldados criados geneticamente, em segredo, que valem por mil homens. E outras porcarias.
- A natureza precisa de seus guardiões do Paiquerê, sussurra uma voz aflita em meu ouvido.
Sob o efeito da droga e com uma dor de cabeça começando, o Ademar pensou que eu era mais uma maluca a aparecer na ilha. Levantou-se cambaleante, ligou o radinho de pilha que estava sob o travesseiro e começou a procurar o fumo Caiçara. Dormiu com o palheiro aceso entre os dedos.
Era o início do verão de 73 quando decidi ficar, mais uma vez afrontando os deuses, guiada pelo instinto. No rádio, Secos & Molhados cantavam Sangue Latino...minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos...Muita gente considerada pirada para alguns e, alienada para outros, aportava na ilha carregando enormes mochilas. A maioria jovens. Abriam clareiras na Praia de Fora onde instalavam suas barracas. Exerciam seu inconformismo com a sociedade de consumo nas férias ou nos feriados prolongados. Depois pegavam um barco para o que chamavam de civilização, doidos por uma cama e um banho quente. Alguns fugiam das cidades, mesmo.
Eram os anos de chumbo, tempos do "Milagre Econômico", do "Ame-o ou Deixe-o", do "Ninguém segura este país". Das prisões, torturas e mortes. Do sexo, drogas e rock in roll. Do faça amor, não faça a guerra.
- Ei, mina, que signo você é? Perguntou Ademar na manhã seguinte.
Entrei no jogo, definitivamente e disse: - Sou de Leão, bicho.
- Você falou alguma coisa de portal, ontem?
- Não, fui obrigada a mentir. Você bateu a cabeça no liquinho, desmaiou. Talvez tenha sonhado.
- Quem é que limpou o sangue?.
- Fui eu, menti novamente. Me sentia muito humana.
Neste mesmo dia fui à gruta para fechar o portal. O único do globo sul. Senti a mesma sensação de abandono do meu marinheiro, quando viu seu navio ir embora. A mesma sensação do poeta que, à noite, se atira ao mar e, por um longo tempo, vê as luzes do navio que deixou, se afastando, até sumirem na escuridão. A mesma sensação nostálgica do desbravador que, para garantir seu objetivo de colonizar a nova terra, manda queimar o navio em que veio ele e toda a tripulação.
Tarobá fez com que eu descobrisse minha verdadeira missão. Fazer com o Vô Lavínio, Ademar e outros futuros guardiões da natureza, o que fiz com o marinheiro estranho, séculos atrás. Ajudá-los a passar a ponte que liga mundos diferentes.