SET/05

PROIBIDO ANIMAIS

* Paulo J. Soavinsky

Papai executivo do governo pensava que tinha tudo sob controle na outra máquina, o computador. Hora da saída, chegada, tempo de viagem, despesas, paradas para lanche e xixi. Férias curtas cuidadosamente agendada e preparada, depois do expediente. Até previsão do tempo perdido teve. Bom, com sol. Livrou-se dos compromissos na repartição para a viagem de São Paulo à Ilha do Mel, "para unir a família", centenas de mensagens eletrônicas depois. Fuga rápida em anos de trabalho sem folga. Orgulhava-se disso. Escolheu um lugar sem carros e sem prédios, para redimir-se como pai ausente. A última moda glorifica executivos que tenham tempo para a família. Entende.

Mas meteu-se obstinadamente em três negociações não programadas antes da do cachorro, na entrada do barco. A pequena terrier alemã de pelo duro pôs em dúvida suas projeções, desde o início. Mamãe colocou seus CDs para ouvir. Na metade da primeira música, antes de Taboão da Serra, papai tirou e colocou um CD de um empresário do mundo das finanças, que falava sobre como ganhar o seu primeiro milhão. Silêncio. Enfiamos fones nos ouvidos e nos desligamos no MP3.

Na estrada o segundo contratempo. Irritou-se com o "pau véio" a sua frente, no limite da sinalização, a 80 por hora, que o obrigava a perder minutos preciosos e fez uma ultrapassagem proibida. O guarda viu e mandou parar. Ficou muito aborrecido, não por ter colocado em risco a vida de todos. Ficou aborrecido pelo furo na agenda. Ia perder tempo negociando uma propina com o guarda. Meia hora de atraso na programação, calculou. Mas se deu mal. O guarda quase o prendeu por suborno e ali foi-se uma hora e meia de explicações. O dinheiro que estava entre os documentos não era suborno, garantia de pés juntos. Silêncio mortal.

Para compensar o tempo perdido e salvar a honra de planejador eficaz, enfiou o pé no acelerador e acabou batendo, de leve, no traseiro do último carro de uma inesperada fila parada sobre a ponte. Distraiu-se olhando a luz do relógio do painel pela milésima vez e quando percebeu que não ia dar tempo, já era tarde. "Crica". Definiu meu pai, depois, o motorista sardento que exigia pagamento da "amassadinha de nada", uns cem metros antes da lombada do Rio Nhundiaquara. O espaço encurtou com as freadas sucessivas dos carros que iam à frente. Nossos pneus fritaram, mas não adiantou. O pára-choque do outro caiu no asfalto. Mais uma hora não contabilizada e outra despesa inesperada para pagar. Com o tempo estourado em mais de duas horas, mudou de estratégia. Iria recuperar os prejuízos com a multa e a batida. Competia com ele mesmo. O bom planejador sempre tem um plano "B", repetiu várias vezes. Indiferença.

Nos estacionamentos do embarcadouro, outra hora perdida com a nova estratégia, aplicada para ganhar uns trocados na negociação com os caiçaras. Na quarta negociação, um pouco distante do trapiche, conseguiu ganhar na barganha. Deu-se por satisfeito. Fez as contas e vangloriou-se que duas passagens de barco sairiam dali. Mas outro imprevisto pôs a contabilidade no vermelho. Precisou de um carrinho para levar a bagagem e lá se foi a economia. Risos.

O barco apitou, indicando que estava quase saindo. Correria de uns quinhentos metros, de tirar o fôlego de ginasta de academia. O carrinheiro passou voando com as malas pela barreira dos fiscais e jogou a bagagem no teto do barco, sem cuidado. Pôs tudo a perder. Fifi, nossa cadela de estimação, escapou do esconderijo da mala falsa e passou a latir. O aviso nos sítios consultados era claro. Proibido levar animais domésticos para a Ilha do Mel. Mamãe disse para deixarmos Fifi num hotel para cachorros, na saída. Papai lembrou-se da existência da Fifi no carro e não quis perder tempo procurando alguém ou algum lugar para deixá-la. Fifi representava um tremendo furo no planejamento solitário da viagem. Justificou-se dizendo que lidava todo dia com negociações complexas e que a cadela não seria problema. Foi. O esquema da mala falsa não funcionou. Os fiscais, "aqueles malas", permaneceram irredutíveis. Não podia e pronto. Houve confusão, bate-boca e a negociação saiu do controle quando um sujeito alto e magro, barba por fazer, passou incólume com uma gaiola de madeira. Dentro havia um gato angorá. A carona para fora da portinhola. Olhos debochados. Juntou aquele bolo de turista em volta da discussão acalorada.

- Ele pode e eu não? Argumenta papai.
- Ele é morador. Está voltando, explica o fiscal.
Perdeu a cabeça e deu um carteiraço na turba. Foi vaiado. Quando a polícia apareceu, papai saiu de cena escoltado, com quatro bilhetes de travessia, ida e volta, no bolso. Não aceitaram devolução. Ameaçou processar os fiscais. Dura lex sed lex, falou para o vento, umas dez vezes. Mais risos.

De Pontal do Sul fomos a Paranaguá, em busca de um barco alugado, por causa da Fifi e dos brios feridos do meu pai. A Fifi virou um cavalo de batalha. Ia junto, nem que fosse preciso um helicóptero. Papai alugou uma lancha depois de muito procurar pelo cáis, perguntar e telefonar para os números dos anúncios. Queria preço e qualidade. Nem deixou a gente jantar. Em meia-hora estaríamos lá, dizia contrariado. A lancha contratada era aberta. No meio do caminho começou a chover. Chegamos na pousada à noite, com horas de atraso da previsão computada, fome, um rombo no orçamento, molhados e mais do que a fama de planejador de papai no chão. Perdemos a janta. Ódio.

* Jornalista

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