Setembro/05

CONTO DO PROJETO

* Paulo J. Soavinsky

Pinheiro, o ecólogo, tem duas caras. A de bobo, que faz quando quer enganar malandro e a de sério, que faz quando alguém o toma por bobo. Pôs-se a sério, pois o sujeito que o procurou em casa, depois do almoço, disse que era professor universitário. Trabalhava para uma ONG nas horas de folga e estava à frente de um projeto para seqüestrar carbono. Precisava de vigia. Tudo dito de supetão, logo depois de estender a mão, puxar um cartão e dizer prazer.
- Prazer.
- Como vai?
- Tudo bem. "Estou sempre bem, mas sempre minto".
Pinheiro assustou-se. Primeira vez que o convidavam para um seqüestro. Mas ficou na dele, aguardando o desenrolar do plano. Começou a encenar a arte de pensar uma coisa e falar outra. "Eu heim! Seqüestro, e logo do Carbone, artilheiro do meu Corínthians, campeão de 51. E este professor ainda fala errado o nome dele. Ou será que pretendem seqüestrar o outro Carbone, o do Internacional, que jogou na seleção. Este deve dar mais dinheiro. E o miserento ainda quer que eu cuide. Tô fora".
Resolveu dar corda. Ficou ali mangando o rapaz de óculos redondinho, barba por fazer, ar de sabichão. Parecido com o cientista maluco de "De Volta Para o Futuro", que viu na TV do mercadinho. Só o começinho. Juntou gente na entrada e o "Seu Zé" desligou. Atrapalhava a freguesia.

Tinha esperança de ganhar uma das canetas com tampas coloridas, presas no bolso da camisa fina do visitante. Receava a bolsa preta que ele trazia pendurada no ombro. Podia ser uma bomba.
"Qué o quê? Tá cheio de maluco por aí".
A filha maior pediu para comprar uma Bic. Para levar à escola. Usava um toco de lápis, reclamou. Sair naquele solão, inventar uma desculpa para se livrar da visita inesperada, nem pensar. O professor podia ficar violento.
Continuou à sombra, sentado na rede amarelada que precisava de uma boa lavada com água de verdade. Da branca. Via-se nela, de longe, nódoas de guapê, banha e manchas de piche. Pinheiro gostava de almoçar a cavalo na rede, ouvindo os Tiês, Saíras, Surucuás e Sabiás que borboleteavam em volta. A brisa esfriando o prato sobre os joelhos, a colher na mão.
Uma das pontas da rede, toda remendada, era amarrada a um galho do limoeiro carregado com limões amarelos e a outra ponta era presa a uma forquilha de aroeira por um pedaço de pau atravessado. Pinheiro não tirava os olhos do professor e, furtivamente, coçava o dedão do pé, por vezes o saco. O prato com resto de farinha, espinha e pele de Paru, largado na areia, atraiu moscas e gatos.

Pegou uma assadura na virilha, depois de acompanhar o dia inteiro um grupo de estudantes pela floresta, em busca de ninhos de papagaios nos ôcos de árvores. Eles foram de bota e ele de havaiana. Podia levar uma mordida de cobra. Ficar de cama como o compadre. A mulher vivendo de caridade.
- Tô acostumado a andar assim pelo mato. Só para tranqüilizar os meninos.
O calção de náilon dava esse problema de assadura. O de pano, seu preferido, rasgou. Deram uns trocos pelo serviço. Ao menos pagava o iôdo para acabar com a coceira. Não descobriu o que o levou a liderar os estudantes pela floresta. Matar a sua curiosidade sobre quanto a ONG levantou de grana com o negócio de ajudar os papagaios.
Os estudantes disseram, meio como desculpa, que eram voluntários. Queriam salvar papagaios em extinção, da cara-roxa. Falaram que tinha gente que traficava os bichos. Tinha comprador que pagava um bom dinheiro. Pinheiro teve idéias. Talvez seu amigo, o político, conhecesse alguém disposto a pagar milão por um filhote.

Tirava um bicho-de-pé, debaixo da unha, quando o professor chegou suado, pelo carreiro da praia. Ofereceu uma banqueta e um copo de limonada. Almoço não, que não tinha.
- Com água da bica!!!
Ordenou a Pançudinho, quando o moleque passou voando pela porta do barraco erguido com tábuas de pinus. Barraco sem banheiro dentro, sem forro, caixa d'água de cimento-amianto, sem tampa, colocada a meia encosta, cheia de folhas boiando. Telhado de Eternit e tinta nova de anos descascando sobre a velha. A da torneira, sabia, ele não ia querer. Cheirava ovo podre. Vinha da ponteira cercada de fossas da vizinhança e perto da casinha dele. Pura, soltava os cabelos. A da rede era cara. Começou com cincão e no ano seguinte passou para doze reais por mês. Cortaram por falta de pagamento.

O professor era daqueles professores de Deus, que adoram ouvir a própria voz. Empolgou-se com a platéia muda de pescadores que foi juntando em volta, mulheres e crianças. Ficou de pé. Desandou a falar. Igual seu amigo político quando tem câmera de TV por perto. O professor preferia as platéias que não interrompiam seu tortuoso raciocínio. Um meneio de cabeça e ele entendia como aprovação, desembestando a falar tanto que perdia-se no labirinto de informações que queria repassar.
Uma hora largou na banqueta a bolsa, derrubando o copo de limonada. Não quis outro, fez sinal com o dedo indicador, sem interromper o fraseado. Nem experimentou. Era um computador portátil. Lape Tope, entendeu Pinheiro.
- Para cálculo do valor dos créditos, explicou o professor.
"Então não era bomba". A criançada se assanhou, mexeu no zíper, curiosa para abrir, ver como era um computador. Só tinham ouvido falar. Ele pôs a bolsa no ombro de novo, sem parar seu monólogo.

"Ah, as frias que tinha entrado, por tramóias do seu amigo político". E o professor de Deus deu de falar da bolsa de Nova Iorque. A pivetada de olho comprido, esperando um pirulito, um chiclete. "Mas seqüestro de jogador. Deve ser da mesma quadrilha que seqüestra mãe de jogador. A mãe do Robinho, do Rogério, do Marinho, do Luís Fabiano. E foi contando". Tudo de ouvir esportes no rádio de válvula. Um fio grudado no arame do varal tirava a chiadeira. O professor discursava sobre o mercado, das vantagens do seqüestro, sustentabilidade e outras palavras difíceis que seu público não entendia. Mas acharam elas bem sonoras, bonitas.
Lembrou-se que tinha dado os documentos para o amigo político. Era para uma boquinha num destes projetinhos caça-dinheiro-grosso que bolaram para despoluir a baía de Paranaguá. Prometeu salário mínimo e uma cesta básica. Não ganhou nem uma coisa, nem outra. Mas seu nome apareceu nos jornais. Era funcionário fantasma da Assembléia, ganhava uma fortuna. Foram ver e não tinha nem onde cair morto. Da outra vez a coisa enfeiou. A Polícia Federal mandou intimação. Fez um sucesso danado andando com os policiais da Pontinha até o trapiche. Tinha mandado milhões para fora do País, através do Banestado, onde nunca teve conta. A bem da verdade, disse para o doutor sentado atrás da mesona cheia de papéis, só tinha conta no caderno da padaria e no inferninho onde jogava truco com a turma. Fora o bar onde tomava umas pingas.
- Só da Meduna, cachaça orgânica artesanal, da boa, de Morretes.

Pinheiro divirtia-se ouvindo o professor de Deus. De vez em quando emitia um "pois é", coçando o queixo e o saco. As horas passaram. Sabia que apenas a conta bancária deles, os donos dos projetos milionários e seus sabichões bem empregados neste meio-ambiente, ia mudar. No mais, os moradores iriam se contentar com quirera, fazendo um bico aqui e outro ali. Meros figurantes na preservação da natureza dos recursos renováveis a cada novo projeto. Quando o professor deu-se por satisfeito, a sombra do barraco estava perto das pedras do Morro Bento Alves. Sinal de que era hora de descartar o eco-chato. Nem perguntou quanto de dinheiro o projeto arrecadou e quanto do total seria investido para melhorar a vida dele e dos outros moradores, para não estender o monólogo. Tinha que aproveitar a parada da maré e ir ver a rede, no Saquinho. Garantir a janta da família. Mas antes de se despedir, tentou ficar com uma das canetas. Nem isso conseguiu. A criançada ganhou umas moedas. Ele não mostrou o computador para elas porque era um equipamento muito caro.

* Jornalista

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