SET/05

PINHEIRO, O ECÓLOGO

* Paulo J. Soavinsky

A fama veio por linhas tortas e se fortaleceu pela mesma batida. Começou por acaso na inauguração de placa de obra e espalhou-se Brasil afora, feito caramujo africano. Pinheiro jovem estava pros lados de Colombo, na ocasião. O convite veio na Ilha, em meio a uma bebedeira de acabar estoque, inclusive as garrafas empoeiradas da prateleira de cima, que as teias de aranha tomaram posse. O dono escondeu a pinga da garrafa das cobras, quando mataram o último litro de licor de cor medonha e fábrica extinta. O malandrinho, que não era bobo de perder comida, sexo e bebida grátis, tomou todas e foi mesmo. Era atirado de nascença o moleque. Assumiu a filosofia dos pais, de que o mundo cria filho de pobre.

Quando o sonho de consumo era rádio de válvula, metade dos moradores da Ilha não conhecia sequer Paranaguá. Pegou a lancha da praticagem no Forte Nossa Senhora dos Prazeres e o trem, por primeiro. Depois pegou gonorréia, cadeia, cirrose e experiência. Mas isso já é outra estória. O turista que o convidou pagou tudo. Virou do avesso a cidade grande ainda na adolescência.

Sucede que estava saindo do boteco cheio de cusparada no chão e cachorro dormindo na porta, quando viu aquele amontoado de gente. Ficou por perto, olhando ressabiado, como quem não quer nada. O pão com mortadela cortada a facão segurou um pouco a bebedeira. Mas os "rolmops" insistiam em voltar por onde entraram. Comeu um vidrão inteiro de sardinha com cebola, para gáudio dos freqüentadores do boteco, que nunca tinham visto nada igual. Sem contar os ovos de codorna e pepino azedo. Foi se segurando.

Depois do quarto ou quinto discurso das autoridades ali presentes, teve noção do que ocorria. Ou melhor, pensou ter. Era um bando de puxa-sacos batendo palmas para o mandante da verba do futuro asfalto que ia "acabar com a poeira e a lama da Estrada da Ribeira". O governador da época fez a primeira das dezenas de promessas às vésperas de eleição e atos solenes inaugurando coisa nenhuma que se seguiram posteriormente, até o início do século XXI. O rasga-seda começou às 12 horas, com duas horas de atraso e foi até às 14 horas, no descerramento da placa.

Com a coragem e língua solta que a cachaça dá, Pinheiro resolveu meter a boca na turma da cartola, suspensórios e gravata borboleta. Falou grosso e conseguiu a atenção do governador antes que os Zé Felintos o jogassem do barranco. Fez sinal para que deixassem o guri falar. A afinada imprensa chapa-branca estava por perto, mas nunca se sabe.

Uma das versões que correm de boca em boca diz que Pinheiro, o ecólogo, era perspicaz. Observou o descampado e perguntou por que eles não plantavam um pinheiro. Ele teria dito pinheiro, especificamente. Donos de serraria que estavam na claque fecharam a cara. Todos teriam olhado em volta e ficado envergonhados com a devastação, reza a lenda. Naquela época, cortar pinheiro era mato. E ademais, o pau-brasil tinha acabado. Se com estrada ruim já era bom negócio, imagine com asfalto. Bem no fundo da paisagem ainda divisaram uma meia dúzia da espécie em pé. O serrotão de dois metros e meio passou longe, por serem considerados raquíticos para os padrões vigentes de corte. Mas já estavam jurados de morte, com ou sem asfalto.

Por esta versão, foi dele a idéia de se plantar um pinheiro no entroncamento da Graciosa com a Ribeira. O jornal local publicou que o governador teve a genial idéia de plantar a árvore, que mais tarde virou símbolo. A matéria vinha recheada de elogios. Os jornais da União tecem elogios ao ministro que liberou a verba e dizem que foi dele a idéia. Desse modo, há controvérsias.

O turista que o convidou para subir a serra encarregou-se de espalhar a versão do pinheiro, que deu origem ao primeiro apelido. O gaiato também se encarregou de espalhar que foi ele quem providenciou a muda, encontrada na casinha dos fundos do boteco. Mas esta última parte só foi revelada aos mais íntimos. Um pacote esquecido de pinhões, ao lado do buraco da privada, aberto na tábua, era constantemente irrigado a xixi de vinho, pinga e cerveja. Os bêbados se divertiam errando a pontaria. Os pinhões brotaram.

Mais tarde o turista-amigo de Pinheiro virou respeitável político. Cansou de tirar fotos com Pinheiro, o ecólogo, ambos ao lado da árvore símbolo, até que ela foi derrubada. Seus opositores ganharam uma eleição e trataram logo de cortar o mal pela raiz. Com a desculpa de que a árvore atrapalhava o progresso. Tinha uns 20 metros de altura e dois de diâmetro, na parte mais grossa, quando deu passagem a um desvio que nunca saiu do papel.

Antes disso, uma campanha insidiosa dizia que D. Pedro II havia descansado à sombra daquele pinheiro, originando uma contra-propaganda, que resultou em perdas de votos. A propaganda negativa colocava em dúvida a versão do amigo de Pinheiro. Se D. Pedro tinha descansado sob a árvore, então o amigo de Pinheiro nem tinha nascido. Era um mentiroso. Donde se vê que queriam mesmo é cassar o seu mandato, por falta de decoro. Uma moda que pegou. Os flagrados apreciavam essa modalidade de castigo à brasileira, principalmente porque se penhorava um anel, conservando-se o dedo e o resto das jóias a salvo. Com uma simples renúncia de mandato o flagrado podia voltar na eleição seguinte, resgatar a jóia e continuar se enchendo de jóias.

Um bisbilhoteiro garantia na rádio de Curitiba que a versão corrente não era verdadeira, mesmo. A rádio era da oposição. O bisbilhoteiro embolsou uma boa grana. Dizia que pegou o mesmo trem de volta com Pinheiro, o ecólogo, e este teria lhe confessado espontaneamente o seguinte, depois de ganhar uns cinco bolinhos pingando banha, para matar a fome, na Estação de Banhados: Tinha saído da zona para meter o dedo na garganta, apertando no bolso o real que ganhou de aposta, por dormir com a dona da boate, uma francesa esquisita, quando viu que não ia dar. Um monte de estranhos a sua frente, batendo palmas feito loucos, em volta de uma pedra enfiada no chão, coberta com um pano preto, o impedia. Segurou a ânsia provocada pelo excesso de bebida. Uns três ou quatro daqueles loucos falavam muito e ele, o orgulho da família, que quase tinha terminado o primário, foi prestando atenção, captando umas palavras aqui e outra ali. Chegou a esquecer o mal estar. E era um tal de crescimento, enraizamento e frutos nos discursos que ele chegou à conclusão que os loucos estavam querendo plantar a pedra. Como os doidinhos não saíam da sua frente, Pinheiro quis acabar logo com aquela palhaçada e ir vomitar em paz. Aborreceu-se tanto pela demora, que resolveu dar a sugestão de plantar uma árvore, em vez da pedra. Incorporou assim, naturalmente a sua pessoa, o apelido de Pinheiro e a alcunha de "ecólogo", quando a ecologia entrou na moda.


* Jornalista

Voltar