Dez/05
* Paulo J. Soavinsky
Atirei a novidade no meio do bolinho de Mestres, Moços de Convés e madrugadores, que reúne-se no trapiche, antes da primeira embarcação de linha sair.
- Vai ter parque na Ilha do Mel.
- Aonde é que você ouviu esta? Perguntou Deivide, marinheiro aposentado. Segurava na ponta dos dedos o copo de café filado, passado há pouco no bar próximo. Era Carnaval de 2002. A neblina continuava forte, impedindo que se avistasse as montanhas do continente. No reflexo da luz verde, da bóia do Mata Fome, um barco pesqueiro dissolveu-se entre o espelho d'água e a bruma.
- Deu no rádio.
- Parque? Repetiu Zapon, dando uma talagada na branquinha. Fez brrrrr, como se não tivesse acostumado e estalou o polegar contra o indicador, chicoteando a mão. Sempre fazia o gesto, acompanhado da observação: - esta é da boa. No bolso de um surrado paletó carregava escondida uma garrafinha de álcool. Todo mundo sabia. Tomava misturado com água, nos momentos de aperto.
- Éééé. Parque. Confirmei, lacônico. Igual ao do Marumbi, Vila Velha... Pega depois do campinho, o Morro do Sabão, as praias e vai até a Brasília.
- Mas ai é a Reserva, constatou Deivide, dando um golinho no café. Nisso Pinheiro, o ecólogo, chegou-se, interessado na conversa.
- Ouvi dizer, disse Pinheiro, entrando na rodinha. Conhecia bem a fama de Pinheiro, de subverter o sentido das coisas que ouvia. Sem maldade. Pinheiro era analfabeto funcional. Quase terminou o primário. Freqüentou o Mobral.
- Ouviu o quê? Perguntou Deivide.
- Esse negócio ai, de Parque na Ilha do Mel.
- E o que é esse tal Parque? Provocou Deivide, querendo divertir a galera. Deu sinal de gato.
- Cês não sabem o que é parque não? Pinheiro deu-se ares de importância. Abusava da palavra qualidade. Achava que conferia nobreza a quem a usava. Se o assunto era peixe, lá vinha ele com o tem peixe de toda qualidade...Se o assunto era passarinho, tome tem passarinho de toda qualidade... Tem mulher de toda qualidade...Gostava da palavra. Já ia falando das qualidades de parques que conheceu quando Gambá, um homão com mentalidade de criança, atravessou Pinheiro. Ganhou o apelido por gostar de comer raposa. Parou depois que descobriu que elas andavam comendo caramujo africano. Os gambás proliferaram desde então. Passaram a ser vistos com mais freqüência, audaciosos, nos forros das casas, nos quintais, por toda parte.
- Mas é claro que a gente sabemos o que é parque. Até criancinha sabe! Eu memo cansei de ir
no parque, em Paranaguá.
Quá!!!, quá!!!, quá!!!. A galera caiu na risada.
- Mas como você é burro, fulminou o Mestre que saía a fazer o horário. Eram amigos. Gambá
levou na brincadeira.
- Pensa que o parque é parquinho de diversão? É parque de parque!!!. Gritou para trás, na disparada. Pinheiro ficou alerta. Com cautela, prosseguiu seu raciocínio.
- Tem parque de diversão, parque de filme (lembrou do Parque dos Dinossauros), parque industrial (esta ele aprendeu com seu amigo político quando, ainda jovem, esteve em Colombo e falava-se da criação de um parque industrial para a cidade) e parque de parque.
- Nesta qualidade de parque de parque nunca tive, mas já ouvi falar, explicou.
Um turista, que não conhecia a fama de Pinheiro, o ecólogo, estragou a brincadeira. Acabou com a cumplicidade tácita da rodinha, provocada pela piscadela do Deivide. O turista não jogava truco. A expectativa de que Pinheiro proporcionasse boas risadas ruiu.
- É parque criado no papel, gente, que nem terreno, só que maior, disse, pernóstico. Fica tudo igual, só muda o nome. As árvores continuam onde estão, os caminhos, as pedras, os rios. No máximo eles põem umas plaquinhas, para dar a impressão aos incautos, que estão cuidando do parque.
Ah! A Ilha vira parque, repetiu Zapon, coçando o queixo. Tinha a irritante mania de pinçar palavras de seus interlocutores e repeti-las.
- Mas qual vantagem nóis leva? Retrucou, dando bafão. Tinha hálito podre que atingia seus
interlocutores a mais de um metro. Ao contrário de Gambá, falava errado por divertimento. "Assustava" cheque em banco e dizia "imo" ou "nóis fumo". Era boa gente. Dormia e acordava com o copo na mão. Desconfio de quem fala que não tem vício algum, dizia.
- Nenhuma, respondeu o turista. É só mais um cabidão de empregos. Os melhores cargos os
políticos e as siglas racham. Escrevam ai. Vocês que não têm pistolão, nem Guarda-Parque vão pegar.
Todos olharam instintivamente para Pinheiro, que tinha um pistolão. Percebeu que era a sua chance de ganhar dinheiro, ter um emprego na Ilha. Criou esperanças. Viu-se investido de guarda, dando ordens, prendendo os inimigos. Decidiu que ia ligar para o seu amigo político e pedir o emprego de chefe dos guardas. E o primeiro preso era Deivide, que vivia rindo às suas custas.
- É mais um caixa prá manobrar verba, continuava o turista. Vão criar mais taxas para
sustentar a farra. Vão prestar contas para aqueles tribunais de faz de conta ou para um conselho fiscal criado por eles mesmos e vocês, apontou para dois turistas, pensando que eram nativos, por causa das roupas surradas - na verdade eram donos de pousadas - vocês vão perder o terreno dos seus pais, por estar dentro do parque. Ai eles tomam tudo, na boa.
A roda alvoroçou-se. Todos queriam falar ao mesmo tempo.
- Pior que é.
- É sempre assim, o pobre sempre se ferra.
- Nóis somos nativos, quero ver tirar nóis daqui.
- Péra ai, turma, péra ai. Não é bem assim não, falou Flamboiam. Era um cara estranho. Tinha
pouco tempo de ilha, mas era respeitado por suas opiniões.
- Política tem que ser igual construção, de baixo para cima.
- Vício e alergia só se cura longe das fontes.
- O cidadão comum é um funcionário público que não fez concurso para trabalhar para o
governo.
- Dar um pouco quando não se tem nada é muito.
Ninguém sabia sua profissão. Uma hora falava uma coisa, outra hora outra. De vez em quando sumia. Como não incomodava ninguém, ninguém se incomodava com a sua vida. Parecia ser do bem, na Ilha. Costumava dizer que fugia da violência da cidade grande, do trânsito e das câmeras indiscretas.
- Menos da poluição, que na Ilha tinha também. - Menor, é verdade, reparava.
- Isto ai leva tempo e pode dar em nada. Não se esqueçam que é ano eleitoral e um outro governo pode vir ai e jogar tudo no lixo. Pode levar anos. E não dá tanto emprego assim. Vejam o Parque Marumbi, tem lá uma meia-dúzia, para cuidar de milhares de alqueires.
O debate durou cerca de duas horas. A roda ia pra lá e pra cá, conforme a vila das Encantadas acordava. Um que comprou pão, parava na volta. Outro que saiu para olhar a maré, ficava. Outro que foi ver o barco. Outro que parou para tomar uma pinga. Outro que ia fazer uma caminhada. Triplicou de tamanho, virou balbúrdia. Parecia barba de abelha enxameando. Nenhuma mulher na roda. Ninguém se entendia mais. Desmanchou-se quando saíram na porrada um membro da associação, que sempre defendia os planos de governos, fossem eles quais fossem, e um nativo, que dizia que nada tinha sido comunicado à comunidade. A turma do deixa disso apartou os dois e o debate acabou. Muita coisa foi falada, tudo de ouvir dizer. Ouvi dizer que iam avançar na divisa, pegando várias casas para depois fazer a sede, a casa da guarda, o que precisasse. Ouvi dizer que o parque era só o começo para tirar os pescadores da ilha. Os barracos que enfeiavam a paisagem - na visão dos "de fora" -, principalmente na frente da Prainha, iam ser demolidos. Ouvi dizer que iam fazer igual a Fernando de Noronha, quem passasse mais tempo do que o permitido pagava mais. Ouvi dizer que o diretor do parque seria escolhido entre os presidentes das associações da Ilha ou de uma federação das associações a ser criada. Ouvi dizer que a turma de Foz ia tomar conta. A conversa degenerou para os mais variados disparates, ao sabor das tricas e futricas.
No outro dia Pinheiro ligou para o político seu amigo, disposto a cobrar o emprego. Pôs a família toda a procura do cartão que ganhou há anos, numa festinha a bordo da lancha do amigo, onde estavam os números dos telefones. Falava mais com o amigo quando ele precisava de um guia para pescar. Tinha mansão do outro lado da ilha. Dificilmente ligava. A maioria das pescarias acabava em bacanais com prostitutas de luxo pegas em pontos discretos na orla. Acharam o cartão atrás do armário da cozinha. Escolheu o telefone público do morro para ligar. Não queria que ninguém ouvisse a conversa.
- Alô. Uma voz gravada, de mulher, dizia: esta ligação não pôde ser completada....Tentou várias vezes o celular. Desistiu quando os créditos do cartão estavam pela metade. Ligou para o número particular do escritório do deputado.
- Quem? Perguntou um serviçal.
- Aqui é o Pinheiro, da Ilha do Mel, quero falar com o deputado. O serviçal, obsequioso,
tampou o fone e falou para o deputado ao lado, baixinho.
- É um tal de Pinheiro, da Ilha do Mel. O deputado mandou dizer que não estava.
- Está em reunião. Quer deixar recado?
- Ligo depois.
* Jornalista