PARAÍSO E INFERNO

Jul/07 * Paulo J. Soavinsky

I

A DIRETORIA

Na mesa reunida por volta do meio-dia, Jornalista cutuca a turma dizendo que a Ilha do Mel não tem vocação para Fernando de Noronha. Só Construtor responde, fugindo do assunto. Os outros amigos se fingem de mortos, mais interessados em não levantar assuntos polêmicos e apenas beber e dar risadas.

- Veja bem, há controvérsias... Dá um sorriso malandro de boas vindas, penteia com os dedos o cabelo pintado de preto e emenda: - Tá atrasado heim véio. E continua a piada que contava, na maior seriedade. Explicava que uma turista tinha perguntado o que ele fazia na vida e que disse:

- Olhe, eu tenho um negócio muito perigoso, lá em cima (Curitiba). E depois de uns segundos de fingido suspense fala: - Eu tenho posto.

- Posto de combustível? Quis saber a curiosa, após breve silêncio.

- Não! Não!

- Eu tenho posto no rabo de um. Tenho posto no rabo de outro.


Pôs à mostra o dente de ouro e os amarelados pelo fumo de horas de jogatina e noitadas de boate na juventude. Beirava já seus 60 anos. Era o raciocínio mais ligeiro da roda, mesmo quando se encharcava de uísque puro. Pousada, Pinheiro e Espião gargalhavam ainda quando Jornalista vai até o banheiro do restaurante. Enquanto tenta mijar, ruminando como acordar os amigos sobre o Segundo Plano de Uso da Ilha do Mel em gestação, pois iria precisar deles, o celular tocou. Era Arquiteto dizendo que já estava no barco e tinha novidades.

- Manda fazer umas ostras ai que eu já chego, e desligou.


No tempo de vida de um cateto, animal em extinção, o Primeiro Plano acabou com o fogão a lenha dos caiçaras defumar peixe, trouxe especulação imobiliária, falta de perspectivas para os jovens nativos, cachorros cada vez maiores e churrasqueiras movidas a carvão. Ninguém se incomodou com isso, nestes 25 anos. Parecia um processo natural. Lenha grátis por gás caro. Vira latas por rottwaillers. Acompanhei a morte do último cateto na Ilha do Cará, a derrota da fogueira na praia e a vitória completa da churrasqueira a carvão na varanda das casas de veraneio. A proibição da fogueira e violão na praia pelas autoridades foi o último prego no caixão da ilha paraíso. A magia dela apagou-se ai acho, sem catetos, sem fogueiras sob o céu estrelado, sem a roda de violão, sem pessoas interessantes. Agora era a churrasqueira sob um teto de forro de plástico, picanha descongelada e conversas pasteurizadas com base em revistas nacionais e jornalões. O último cateto da Ilha do Cará foi morto a tiros e assado lá mesmo. Os porcos do mato comiam as tralhas dos pescadores desavisados da cidade. Variavam o cardápio de raízes, bromélias e caraguatás, de vez em quando. Ficaram com raiva deles. Disseram que afetavam o meio ambiente, comendo plantas e abrindo picadas entre os espigões de pedra. Babaquice. Como começou a aparecer muitos pescadores na Ilha do Cará, as queixas contra os porcos também aumentaram, chegando aos ouvidos das autoridades ambientais. As festas de passagem de ano, sem o porco-do-mato sacrificado para manter o equilíbrio da Ilha do Cará, não tinham mais graça. Era nesta ilha que os caiçaras da Vila de Encantadas criavam seus porquinhos, longe da vista dos estranhos da cidade. Eram sábios. Os catetos vinham vivos e com as pernas amarradas, no fundo de uma canoa. Um perigo. Dois caiçaras se equilibrando em pé a remar os escoltavam. O segredo de remar em pé uma canoa daquelas, construída de um tronco só, com menos de um metro de largura, era apoiar a barriga das pernas no assento e manter os pés abertos no fundo. Uma posição bem incômoda, cansativa.


Mas os “Amigos do Gole Grande”, como o grupo de aposentados mais influentes da Vila se identifica jocosamente, não querem saber destas histórias, quando os velhos nativos passaram a se defender dos ataques ao seu modo de vida, vendendo terrenos para turistas erguerem suas segundas ou terceiras casas, apesar de constar no tal primeiro plano que a venda era terminantemente proibida. Era uma contradição, mas vendiam para terem uma poupancinha, comprar um barco, estas coisas. Assim poderiam ter um lotezinho registrado no continente, “de papel passado e tudo”. “La garantia soi jo”, brincava Pinheiro.

- Venderam? - Que se danem!!! Esta era a opinião atual dos amigos do gole grande. Jornalista discordava elegantemente, para não perder os amigos. Tinha esperança de que, por um passe de mágica, viessem a mudar de opinião e passassem a defender a cultura dos caiçaras como importante, até mesmo para trazer turistas às suas pousadas.

Os estrangeiros ficam escandalizados quando digo a eles que isso ocorre com frequência no País, isto é, a mania dos políticos criarem leis para os outros cumprirem, não eles. É através dos pistolões que todo dia pipoca uma construção nova nas vilas do Farol, Brasília e Encantadas. E depois, cinicamente, são os mesmos que vão para as televisões bradar contra o crescimento desordenado na Ilha do Mel. Um jogo de cena, jogado quando uma eleição se aproxima. Depois se esquece tudo.

- Não podemos mais defumar peixes para o inverno, caçar dá cadeia, plantar então, nem se fala, nem criar galinhas ou porcos, então vamos vendendo, me disse certa vez Pinheiro, com amargura.

- Este é nosso desenvolvimento sustentável, brinca. Pinheiro conheceu Curitiba e arredores ainda jovem, nos tempos em que seus pais mal e mal iam a Paranaguá. Caiçaras como Pinheiro sabem intuitivamente que é o fim deles que está nos planos desta gente, cozinhando em banho maria. Seus filhos ou netos passariam a morar no continente, não havia dúvida. Era só uma questão de tempo. Então eles se vingavam do abandono a que foram submetidos, desfazendo-se de parte da única coisa que queriam deles. As terras. Vendiam mas permaneciam todos, a família inteira, no mesmo lugar. Como os bandos de catetos espremidos na Ilha do Cará, esperando a morte chegar. Ou a sorte grande. Um bilhete premiado para o paraíso. O gozado é que os “De Fora” achavam que ali era o paraíso. Foderam com o paraíso.


Na implantação do primeiro plano, em 1982, o governo deu pistas do que viria. Arrumou o que havia de pior para se representar na Ilha. Um fiscal despreparado para lidar com a comunidade, armado com um revólver escondido na sua capanga preta. Quando bebia andava com a arma na cintura. Bebia quase todo dia. Com a ameaça da arma, obrigava os caiçaras a se adequarem aos novos tempos. Um barulho de facão no mato e o fiscal aparecia. Mas fechava o olho quando as irregularidades partiam das novas construções dos “De Fora”. Chegaram ao cúmulo de erguer dois pavimentos em alvenaria e de sumir com árvores de 15 metros de altura, da noite para o dia, sem que os fiscais percebessem a tempo. Dois pesos e duas medidas para uma ilha que parecia aquele cachorro que morre de fome por ter dois donos. Um acha que o outro está dando comida, não se falam e o cachorro morre. Dois órgãos, um federal e outro estadual, cuidam da ilha, sem falar no municipal, que anda fazendo o seu Plano de Uso da Ilha do Mel também.


Neste tempo todo, desde 82, os ilhéus das baías de Paranaguá, Pinheiros e Laranjeiras receberam só desprezo pelos parques e áreas de preservação da fauna e da flora criadas. É humilhante. Os animais da região recebem tratamento melhor e mais dinheiro para sua sobrevivência aos novos tempos de exploração do turismo que os nativos sem peso eleitoral, sem charme ecológico para atrair uma Chevron, uma GM. O papagaio e o mico-leão têm várias ONGs em sua defesa, financiadas por empresas que estão de olho em nossas matas, minérios e água. O nativo nenhuma. Ficaram sós, como sempre estiveram, mas sem os porcos-do-mato para variar o cardápio de charque no inverno; peixe fresco, farinha, feijão e arroz quando podiam. Os caiçaras da Ilha do Mel ficaram espremidos entre uma cerca divisória nos três por cento dos 113 alqueires do território e a água do mar, mas com a fome rondando – ninguém defuma peixe com gás -, para minar suas resistências aos novos tempos de televisão, drogas e corrupção pelas terras. O mundo deles, do fogão a lenha assentado no chão batido e charque dependurado sobre a fumaça, definhava imperceptivelmente, assim como a profissão de pescador nas dezenas de ilhas em volta, o roçadinho para os noivos, o fandango e o telhado de palha nos casebres. Ninguém se importou pra valer com isso, com a sua cultura sem relógio para saber as horas. Os jovens nativos querem distância da pesca e cada vez mais se espelham nos jovens turistas, da fala às roupas de marca, passando pelo uso de drogas. Também querem distância do trabalho mal remunerado, sem carteira assinada, sem perspectivas. O corte de árvores como o Guapiruvu, para canoa, ou Figueira, para gamelas, a tarrafa, as redes, o espinhel, a rocinha, o cambau, enfim, tudo aquilo que sustentou o pescador sem água encanada, sem luz e sem saneamento nas ilhas por gerações, passou a ser complicado e burocrático na era das churrasqueiras e telhado de cimento amianto. Para enterrar algum ente querido, ao lado de seus familiares no cemitério da Fortaleza, no norte da Ilha do Mel, era uma guerra de nervos. O corpo sendo velado e a família do caiçara sem saber se o enterro seria autorizado. Com o tempo, a maioria das famílias passou a usar o cemitério do continente, para evitar aborrecimentos nessa hora.



II

Eu usava um calção listrado de marrom e amarelo quando pisei na Ilha pela primeira vez. Lembro bem do calção, por causa de uma foto tirada nas pedras afiadas da Gruta das Encantadas por um dos meus amigos cabeludos. Na foto saiu a data, 1974. Éramos cabeludos e nos sentíamos sintonizados com o mundo que reuniu mais de 500 mil jovens em Woodstock, cinco anos antes. Era a contracultura, mas não sabíamos disso por causa da ditadura. Mas tinha uma inquietação no ar que era captada por nossas antenas cabeludas e transmitida para outros jovens cabeludos dos mais diversos países. Uma transformação mundial pacifista dos costumes, apenas com o uso do corpo. Mas não consegui tirar carteira de identidade cabeludo, para mostrar para meus netos. Mandaram cortar, se quisesse tirar este e outros documentos. Até hoje é assim. E tem que ser de terno e gravata. É destas idiotices que estou falando que provocaram um afastamento de nós, os cabeludos, da sociedade e dos velhos quadrados. Éramos chamados de alienados. Mas não tínhamos alternativa, já que paz e amor era nosso ideal.

A tribo dos mochileiros cabeludos procurava lugares como a Ilha do Mel nesta época. Locais de difícil acesso para os acomodados. Uma estrada ruim, cheia de curvas e com pontilhões sinistros ligava Praia de Leste a Pontal do Sul. Quando chovia, ônibus e carros de passeio encalhavam nas lagoas do meio da estradinha de areia fofa. De Pontal até a ilha era um pulo de barco, mesmo a remo. Fiz amizade com os pescadores que moravam próximos do Canal da Draga, no continente e eles nos levavam, eu e meus amigos, de barco até a ponta mais próxima da ilha. Na volta pagávamos para um dos ilhéus nos levar até os baixios, na entrada de Pontal. Criou-se uma forte amizade entre estudantes cabeludos da cidade e pescadores. Os do continente estavam sendo expulsos de suas terras a beira-mar. Eram considerados posseiros e uns grileiros de terras tinham conseguido os documentos. Quem não aceitasse a proposta de ir morar num lotezinho dos fundos, cheio de butuca, mosquito e pernilongo, longe do mar, via seu barraco consumido pelo fogo.

Os pescadores que moravam depois do Canal da Draga, no continente, não tinham cercas entre as casas esparsas. E a maioria dos moradores da Vila de Encantadas, no lado Sul da Ilha do Mel, a quatro quilômetros do continente, também não tinha cercas separando casas e vigorava o costume da pesca comunitária, como o arrastão na época dos cardumes de tainhas. O dono da canoa, os remadores, o dono da rede, o espia e os puxadores, todos tinham o seu quinhão, em peixe ou em dinheiro, depois da venda das tainhas. Aquilo me chamou a atenção e foi logo na primeira vez que eu achei que aquele era o meu lugar. Eu me adaptava perfeitamente àquele modo de vida e fiz amizades facilmente. Pensei em largar tudo na cidade e passar a viver com os caiçaras, como o Ade e o Henrique fizeram na década de 70. Foram os primeiros “De Fora” a passar invernos e mais invernos nas Encantadas.

Até chegaram a me oferecer um terreninho, se quisesse construir um barraco.

- É só roçar e pagar uma taxa para o SPU, me informaram. Não aceitei. Ia lá duas ou três vezes ao ano, nas férias escolares ou nos feriadões. Acampei várias vezes na Praia de Fora, na Bica e na assombrada Pontinha.

- Tem visagem lá, alertavam os nativos. Era nos morros da Pontinha que morou um certo Manoel Louco, que mandou seus escravos jogar sacos de moedas de ouro no mar. No centro da Ilha, mais distante do continente, de onde pegávamos os barcos, nunca acampei.

Mas depois vieram os especuladores, comprando, se apossando e enganando os nativos para serem proprietários de um terreno na Ilha do Mel. Daí chegaram as cercas de arame farpado. Eles não compreendiam os costumes dos caiçaras, seu tempo ligado às marés, às luas, seu trabalho intermitente e sua cultura. Nem queriam compreender, como os portugueses fizeram com os índios. Teve sacana que “comprou” terreno oferecendo garrafa de cachaça, televisão ou geladeira, quando a luz elétrica chegou. Ninguém se importou com isso. Tinha até quem elogiasse o sacana, dizendo que era esperto para negócios. Até os “De Fora” entraram na onda e passaram a viver da febre da venda de terrenos. Pedro Pedra entrou neste “oba-oba”, especializando-se neste filão.

Foi aí que comprei um terreno de frente para o mar na Pontinha, com mais três amigos. Compramos em sociedade de um pescador de Santa Catarina, que estava na Ilha há pouco tempo. Chamavam-no de Catarina e como tinha o corpo peludo, era conhecido também como Cadeirudo. Catarina era um nômade do mar, não parava muito tempo num lugar. Montava barracos em tudo quanto era Ilha, de Santa Catarina a São Paulo, depois vendia e sumia. Quando pegava peixe, bebia três dias seguidos. Morava sozinho na Ilha, com seu barco e seu cachorro que não lembro mais o nome. Se eu quisesse, não pagava nada por um terreno grande. Mas não era do meu feitio.


III

Arquiteto sentou-se na popa e tirou a camisa para ir se bronzeando durante a travessia de Pontal do Sul até as Encantadas. Observou os outros passageiros acomodados sobre compridos bancos de ripas, sob um teto de coletes salva-vidas com apitos pendentes. As caixas abertas de mantimentos estavam sob os bancos, junto com sacolas plásticas de supermercado e dava para ver latinhas de cervejas entre pacotes de leite, enlatados, laranjas e cabeças de alfaces. Na cobertura da embarcação que ia para a Ilha do Mel os marinheiros colocaram uma geladeira, malas com rodinhas, isopores, colchonetes, barracas e mochilas dos 80 passageiros. Ia com a lotação máxima.

Na saída do rio para o mar, as garças aninhadas em pedaços de postes que sustentam pneus encobertos pelas águas, nem se incomodaram com os gritinhos dos passageiros, com suas máquinas digitais e celulares apontadas para elas. Garças brancas, azuis, mergulhões e até um bem-te-vi. Nenhum voou com o barco navegando próximo do “muro” de contenção, para dar passagem a um barco de pesca que vinha em sentido contrário. Sobre o barco de arrasto tinha um bando de gaivotas em círculos.


Nas pedras enormes do outro lado das garças, na saída do canal artificial, pescadores de final de semana tinham a esperança de pegar um robalo, uma caratinga ou um bagre. Os blocos de granito vinham de uma pedreira à margem da rodovia federal e serviam para manter aberta a foz do Canal da Draga. Os pneus e postes do outro lado tinham a mesma função. Antes do DNOCS abrir o canal artificial em linha reta, o rio serpenteava naturalmente pela praia a procura do mar e desaguava há cerca de um quilômetro, ao Norte. Depois da obra desastrada, o mar começou a invadir tudo, derrubando casas, Guapês e o projeto de uma Avenida Atlântica. Do lado dos pneus o mar avançou uns 200 metros em meia-lua. Do lado do espigão de pedras o mar não comeu a areia. Pelo contrário, na frente de Pontal começou a depositar areia, fazendo a alegria de espertalhões, que passaram a lotear e vender a área para incautos. Mais dia menos dia estes compradores terão que se haver com o mar exigindo o que é seu de volta e também com a Justiça. O pessoal que comprou anteriormente a frente para o mar não gostou e entrou com uma ação.


IV


Dois navios ao longe, um entrando e outro saindo da baía, atraíam a curiosidade dos passageiros. O dia estava bonito, com sol e mar calmo. O Mestre da embarcação, acostumado a passar na frente dos navios ou acompanhá-los lado a lado até passar o perigo e continuar a viagem, avançou confiante sobre o canal. Um cheiro de algo queimando começou a incomodar os passageiros. Era um cheiro de borracha, sem fumaça. Ninguém se levantou para informar o problema na cabine, de medo de parecer inconveniente.


O motor morreu bem no meio do estreito canal e o barco ficou a deriva, com dois navios de carga para passar entre as bóias de sinalização. Um navio entrando na baía e outro saindo. O Mestre procurou tranquilizar os turistas e pediu para que os que ocupavam os bancos do meio, sobre o motor, se levantassem e ajudassem a tirar um alçapão que levava ao porão.


- Vai levar cinco minutos, disse. Entrou no porão com uma bomba de água sobressalente, uma chave de boca e uma chave de fenda. O nervosismo de alguns passageiros se espalhava pelo barco. Os mais prudentes começaram a pegar os coletes e a amarrá-los no corpo, sob o olhar irônico de nativos, acostumados com incidentes no canal. O navio que entrava estava perto da Ilha da Galheta e o outro estava a duas bóias de sinalização de distância, na Ilha das Cobras.

- A água tá gelada para nadar, falou um dos nativos, em tom de galhofa. Outros turistas ajudavam o Mestre no que podiam, em silêncio, com um olho no conserto da bomba e outro nos navios que se aproximavam rapidamente.


- Despeje água nesta mangueira, disse o Mestre calmamente para um turista agoniado que estava no convés. Ele pegou uma garrafa de água mineral ao lado e despejou um pouco de água na mangueira e outro tanto fora. Suas mãos tremiam. Depois do conserto o Mestre deu ordem para que seu ajudante ligasse o motor. Ao ouvirem a ordem os turistas ficaram na expectativa. O motor pegou e ouviu-se os gritos de alegria dos passageiros, como quando volta a luz depois de um apagão à noite.

- Huhuuu!!!

O Mestre colocou a tampa no lugar e retomou seu posto. Mas logo em seguida o motor parou de novo. Os navios começaram a buzinar insistentemente e uma mulher ficou histérica. O som das buzinas ameaçadoras e os gritos da mulher despertaram o animal que há em cada ser humano. Ai virou um inferno.


- Não quero morrer!!! Não quero morrer!!! Gritava e chorava a desconhecida. Aquilo foi o fim das aparências. Os homens mais fortes pegavam dois, três coletes em meio à balbúrdia, aos socos e ponta-pés.

- Não vão para o mesmo lado!!! Gritou o marinheiro, no empurra-empurra.

- O Mestre passou a mão no rádio e começou a berrar por socorro. Ao perceberem aquilo, alguns jovens turistas que bebiam vinho no gargalo perderam o sorriso irônico. Surtaram e se atiraram na água, sem coletes. As crianças choravam nos braços das mães, que começaram a fazer o sinal da cruz e rezar bem alto.

- Pai nosso que estais no céu...


V

Construtor falava rápido e com clareza de líder carismático, quando queria. Era o único dos cerca de 300 moradores da Vila que tinha duas tevês grandonas via satélite em casa, com DVD para filmes. Resquícios da vida de empresário bem sucedido que ficou para trás, no Brasil. Arruinou-se nos negócios. Um sócio lhe passou a perna e os amigos de outrora não o procuravam mais. Vivia como um hermitão desde que mudou-se para a ilha. Fazia a própria comida enquanto ouvia a tevê de 29 polegadas instalada na sala ao lado, sem visão do fogão. Mudou-se para uma Ilha com máquinas para passar cartões no comércio, telefones públicos, postos de saúde, escolas, correios, padaria, mercearias, água encanada, barcos de hora em hora na travessia e luz. Já tinha até um Parque lá. Só que no papel. Na realidade era apenas uma sobreposição onde antes se lia nos mapas “Reserva Natural”.

- Se este mentiroso sentar aqui eu vou embora, disse Construtor, olhando para Hospital vindo em direção à mesa da diretoria. Hospital aproximou-se perguntando:

- Sabem da última?

Construtor nem disfarçou, ancorou-se no balcão de itaúba, ao lado da maquininha dos cartões, da sua garrafa de cerveja e o copo que pegou ao levantar-se. Foi um senta-levanta civilizado. Hospital nem quis saber. Puxou uma cadeira nova, ao lado da que ficou vaga. A última era velha conhecida, repetida até dar nojo, mas quem ficou deixou Hospital contar a variante da piada do elefante e a formiguinha que pediu carona para atravessar o rio. Acordo tácito. Fazia parte do show. E no final apenas Hospital dava estrondosas gargalhadas, para chamar a atenção.

- Bicha! Bicha! E imitava a voz da formiguinha, enquanto batia na mesa de plástico, balançando copos e garrafas. Nunca derrubava nada. Divertia-se com a aflição dos companheiros levantando os copos cheios. Os vazios ninguém ligava. Era o começo da malvadeza.


Empresário, atento no caixa, liga o som ambiente para abafar a conversa dos amigos do gole grande. Sabe que vai começar a sessão. Aos poucos o restaurante do Empresário pega um vai e vem de garçons sem pressa, conhecidos no balcão pondo as novidades em dia, ruídos de sinetas da cozinha, cheiro de camarão e peixe fritos e turistas em trajes de banho com o prato na mão, tirando montanhas de comida do buffet.

É um restaurante popular quase ao ar livre, de frente para o mar calmo da Vila de Encantadas, ao sul da Ilha. Fica no meio da praia, entre pousadas, ao lado do carreiro principal que liga as praias de Dentro e de Fora. Só a cozinha tem quatro paredes. A porta principal da cozinha fica de frente para um balcão fechado por janelões de tábuas de assoalho. Durante o dia ficam presas ao teto. Empresário vigia tudo do caixa, no final do balcão.

- Dormiu do lado errado da cama Irmã? E a Irmã continuava os seus afazeres no convento, já intrigada com a pergunta.

- Dormiu do lado errado da cama Irmã? Até que uma hora ela não aguentou e resolveu perguntar porque todo mundo perguntava aquilo para ela.

- É que a senhora está com os chinelos do Padre.

E Hospital ria alto e batia com os punhos na mesa. Outra malvadeza. Jornalista suspeitava que dentro de poucos meses Hospital teria sérios lapsos de memória e esqueceria o caminho de casa. Repetia as mesmas piadas como se tivessem saído do forno naquela hora. Na confraria do gole grande todos tinham doenças que escondiam dos amigos. Um tinha lapsos de memória, outro câncer de próstata, outro cirrose, outro catarata, outro úlcera, e assim ia a coisa. Mas ninguém queria virar computador em UTI de hospital, com todos aqueles fios enfiados no corpo.


Todo dia era domingo para a confraria do gole grande. Bater cartão no almoço e no jantar no restaurante dos turistas virou vício. Da zona sul vinham Jornalista e Hospital. Da zona norte Construtor e Negro. Pousada e Pinheiro eram da zona central. A mesa da diretoria, onde se reunia o estado maior do gole grande, raras vezes tinha intrusos. Dava para pegar sol de bar nela e sauna, por causa do telhado de amianto e o calor do buffet. Era recusada pelos turistas, que gostavam mais das mesas com ventinho, de frente para o mar ou na areia, protegidas por guarda-sóis ou sob a coberta de palha. Em torno do núcleo principal dos frequentadores diários, de todas as idades, girava uma gama de trabalhadores, pescadores, excluídos e os “De Fora” da Vila. A mesa ficava perto do caixa, ao lado do freezer dos sorvetes. Dali dava para descortinar o Farol à esquerda e as bóias do canal, por onde passavam os navios de carga. Quando tinha gente nela a confraria aguardava em pé, pronta para o assalto. Era a mesa preferida porque Empresário também participava das conversas e sessões de piadas, sem deixar de trabalhar. Ficava maquinando para soltar umas e outras na reunião da velharada “das antigas”, com bastante efeito.

- Sabem por que as tainhas saltam ai na frente, perguntou dia destes, numa animada sessão de piadas. Claro que ninguém sabia.

- É para ver se o Lôa não está por perto.

Quá, quá, quá. A turma toda cai na risada. O Lôa é o maior pescador de tainha da área. Não pode ver uma delas pulando no mar em frente que já chama o irmão ou seu pai e põe a canoa com a rede na água.

- Eu tava com o Norinho um dia lá perto do Farol, no barco dele, e ele resolveu cagar, disse Pousada.

- Tirou o calção e mostrou a bunda para o pessoal da praia. Gritou que ia mandar merda para eles. Cagou da borda do barco. Pulou na água depois, para se limpar e voltou pálido em seguida. O porre dele passou ali mesmo. Vamo!!! Vamo!!! Vamo!!! Gritava, visivelmente transtornado.

- Eu não tinha entendido nada, dai vi o bicho. A sombra do tubarão na água. Pousada fez um círculo no ar com o indicador.

- Ele rodeou o barco. Nós sumimos dali. Não, é sério mesmo. O Norinho nunca mais voltou ali, de medo.

- Tava eu e meus dois filhos no barco, emendou Hospital. O menor fisgou um troço pesado pela proa. Era uma raia, mas um monstro de uma raia. Mas era um monstro de raia, repetiu, agora bem alto. Várias cabeças voltaram-se para Hospital.

- Maior, muito maior que o nosso barco, continuou, curtindo o efeito de suas palavras nas mesas próximas. Devia pesar cerca de uma tonelada e meia. Eu não cortei a linha. Resolvi puxar para ver o que é que ia dar. De repente o bicho saltou. Voou por cima do barco. Por cima do meu filho.


Assim, entre piadas e mentiras, o dia passava mais rápido. E a noite também, quando tinha forró. O restaurante ficou tão aconchegante que Construtor começou com o negócio de tomar café ali. Chegava lá pelas nove, enchia o copo americano de café preto e comia o que estava na mesa para os hóspedes da pousada nos fundos. Pousada chegava cedo, assim que Empresário abria e já dava uma talagada no quente. Os dois filões ficavam zanzando por ali, conversando com um ou outro que aparecia e com os garçons que varriam o chão, limpavam e ordenavam mesas e cadeiras. Ai pegavam as mesas da primeira fila, de onde se via toda a extensão da praia, desde o trapiche até a pontinha.

Quando Jornalista voltou do banheiro, com a sensação de que precisava mijar de novo, o assunto na roda era o Plano de Uso que o governo não assinou. Espião tinha ido embora, felizmente. Umas dez pessoas em torno de duas mesas juntadas davam suas opiniões no fofocal, agora. Tinha nativos, “De Fora”e moradores. Jornalista cutucou de novo.

- Ainda bem que não assinou!!! Escute, o governador não é burro de assinar uma bomba armada para explodir nele, disse Jornalista. Lembrou que tinha que tirar umas fotos na zona norte. Fofocal era outra denominação para o ponto de reunião no restaurante, dada pela oposição maldosa, que vivia de conchavos e migalhas que pingavam nas “forças vivas” da sociedade local, associações afundadas em dívidas, que não representavam mais ninguém, só interesses pessoais, familiares e políticos. Estas associações mandavam “representantes” para o conselho burocrático, cuja maioria dos membros era gente “De Fora”. Os nativos mesmo perderam sua voz no conselho.

- Peguei o OVNI, que todo mundo diz que existe, mas ninguém viu, disse Jornalista, aproveitando a audiência. Alguém vai querer cópia da papelada do plano que o governador não assinou? Tô subindo para tirar xerox na Assembléia. São quase 70 páginas e ainda falta muita coisa dos anexos.

- Escute, se ele não assinou é porque não vale nada e se não vale, não adianta perder tempo, dispara Construtor.

- Eu não perco tempo com estas coisas, metralha.

- Do que é que vocês estão falando? Perguntou Pousada, já na segunda ou terceira dose dupla do quente, naquele dia de sol. Andava sempre com a faísca atrasada.

- Tão falando daquela merda de plano? Perguntou com a língua enrolada.

- É tudo anteprojeto, mas se tivesse assinado e publicado virava lei e nós, os moradores, não fomos consultados, disse Jornalista. - Eles sempre copiam de algum lugar. Pegam aqueles arquitetos que acham que casa de pescador estraga a paisagem. Se tem reação, engavetam e esperam outra oportunidade para dar o golpe. - Não vê o plano anterior, tá ai há mais de 20 anos e é só não para o morador. Não pode espinhel, não pode tarrafa, não pode rede e quem tem grana faz o que quer, constrói onde quiser, até nas dunas, daqui a pouco estão nas pedras. - Já saiu negócio de R$ 350 (mil) paus na Ilha. Agora mesmo um fazendeiro cheio da grana, do interior do Paraná, comprou quatro terrenos de uma pancada só. Para ele isso deve ser preço de banana.


- Mas querido, isso tudo é inveja de quem não tem. Não pode e fica aí falando. Eu faria a mesma coisa, se tivesse dinheiro. Botava tudo prá baixo e fazia uma coisa bonita. Acabava com estas favelinhas e os caminhos de ratos.

- Querido, você é culpado disso arrematou, se dirigindo a Jornalista. Construtor pegou a mania de usar querido pra cá e querida prá lá, a torto e a direito.

- Fica ai defendendo pescador que não pesca mais. - Vendeu tem que cair fora, se não tiver mais onde morar, completou.

- Talvez a gente possa participar do próximo plano, numa Assembléia Geral e tendo os artigos, fica fácil emendar, fazer propostas, falou Jornalista, imbuído de boas intenções.

- Quanto mais gente souber o que fazer, melhor. - Gente que saiba ler e entender o que está escrito, completou. Ia continuar o discurso mas foi cortado por Hospital.

- Sabem aquela da freira? E Hospital começa a contar, mesmo que os ouvintes protestem e digam que esta ele já contou a pouco.


VI

O som triste das buzinas, primeiro uma, depois outra, como de um grande animal ferido, chamou a atenção de todos no restaurante. Mas ninguém se deu conta do perigo ao largo. Dali não dava para ver o navio que entrava no canal, apenas o que saía e a mancha verde do barco do meio-dia vindo. O que entrava era encoberto pelo morro do Farol. Só dava para ver seu mastro passando, na direção do caminho para a Praia do Lanço, entre dois morros. O celular de Jornalista tocou. Era Arquiteto pedindo socorro.

- Pegue a voadeira... rápido...rápido. Vamos afundar.

- Hã...Calma. Fale devagar... Que é que está acontecendo?

- Estamos à deriva...O navio...Tem gente pulando na água...Pôde ouvir gritos ao fundo e muito choro.

Jornalista compreendeu num átimo. Correu até o balcão ainda com o telefone grudado na orelha. Explicou nervoso para Empresário que o barco da travessia estava à deriva, no meio do caminho dos navios e que precisavam da voadeira urgente. Rapidamente os garçons puseram a voadeira dele na água e o piloto ligou o motor. Todo mundo parou de comer, vendo a correria para colocar a voadeira no mar. Um monte de homens ajudou a empurrá-la na água, até a altura das coxas. Os amigos do gole grande permaneceram sentados. O motor baixou e a voadeira saiu roncando. Jornalista mal teve tempo de entrar. Ficou com metade do corpo para fora por algum tempo, até ajeitar-se dentro da voadeira em disparada. A praia encheu de gente apontando para o canal, desde o trapiche - onde já se via gente correndo, até a Pontinha, onde turistas pararam de nadar e ficaram observando tudo de dentro d´água. Usavam a mão para protegerem os olhos, por causa do sol contra. A voadeira partiu e logo em seguida uma lancha, outra e mais outra. Depois um barco grande, da travessia, saiu em socorro do colega.

Jornalista falou para o piloto não se aproximar dos três jovens. Percebeu que estavam bêbados. Poderiam tentar subir juntos e acabariam virando a voadeira. Disse para ir até o jovem que nadava sozinho, mais afastado do grupo. Ele estava sóbrio e calmo. Pegaram mais dois afobados que estavam com os coletes e, depois, se aproximaram dos três jovens. Com a ajuda dos que já estavam na voadeira, todos que estavam na água embarcaram. A água batia perigosamente próxima da borda da voadeira. O peso foi bem distribuido, para não entrar água pela popa. Só não entrou água na voadeira porque o mar estava calmo. Os navios apitando já estavam bem próximos do barco à deriva. Jornalista calculou que não iria dar tempo para deixar os resgatados nos barcos de socorro que estavam vindo. O barco da travessia estava bem na direção dos navios. Ia ser partido ao meio. Os apitos fúnebres não paravam. Na praia todos torciam. As lanchas e os outros barcos não poderiam fazer nada, a não ser aguardar a passagem dos navios, que estavam a alguns metros de distância do barco onde as mulheres rezavam alto. Também não podiam dar a volta no navio mais próximo, não dava mais tempo. Jornalista mandou o piloto se aproximar do barco à deriva. Para acalmar os resgatados, disse que a única chance de salvar os que ficaram a deriva e eles mesmos, era grudar na borda do barco da travessia e todos saltarem para dentro, com exceção do piloto. E deu o argumento fatal.

- Quem ficar na água vai ser triturado pelas hélices.

Dos oito que estavam na voadeira dois ficaram, paralisados pelo medo. O resto saltou. Não havia mais tempo para discussões. As proas dos navios vinham cortando água e as buzinas não paravam. Jornalista assim que saltou no outro barco foi se equilibrando pela borda, pelo lado de fora, até a proa. Mas um marinheiro se adiantou e já estava jogando a corda para o piloto da voadeira. Ele amarrou a corda rapidamente perto do motor e começou a puxar. Dentro da cabine o Mestre rodou o timão. O barco virou em direção paralela ao navio que entrava na barra segundos antes de ser abalroado. Ficou a alguns metros daquele prédio de aço. Chamava-se Grimaldi e tinha mais de cem metros de comprimento. Vinha na rotação mínima. O outro que saía também já tinha desacelerado ao máximo. Agora eram dois paredões de aço a poucos metros do barco puxado pela voadeira, apenas para ficar no rumo entre os navios e não ser destroçado.

* Jornalista


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Continua em jul/09


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