PARAÍSO E INFERNO

* Paulo J. Soavinsky

Antes do trapiche erguido pela comunidade, em 1995, o desembarque nas Encantadas era na água. Foto: Toni (1983)

CAFÉ COM PEIXE - Pedro Pedra nem era Pedro Pedra quando pula da batera na Pontinha. Sente-se Marco Polo, só de estar na Ilha do Mel. O dia ajuda, com mar de piscina e sol. A paisagem, a praia e o povoado que vê, tudo o fascina. Vidrado, comparou a cometas, esplêndidas mães d'água que desfilaram sob o casco, no Mar de Dentro. Ele não sabe, mas dali para a frente será conhecido entre os nativos pelo apelido: Pedro Pedra. Sua fama sairá da Vila de Encantadas, onde acaba de chegar pela primeira vez e depois, em 1993, vai voltar para ficar. Marinheiro de primeira viagem, vindo do nortão do Paraná, caiu na armadilha que turistas caem, de saltar do barco antes da hora. Percebe tarde demais que o fundo arenoso "próximo" é ilusão de ótica. Fundo salpicado de algas que dançam balé sem sair do lugar, com coreografia animada por cardumes de manjubinhas.

A providência de dobrar a barra da calça acima dos joelhos brancos foi em vão. Molhou a calça de brim azul, a domingueira, boa para viajar. Mas o imprevisto não o aborrece. Nem serve para reflexão. Pedro é um homem prático. Um engano é apenas um engano. Nada mais. Anda com dificuldade os primeiros metros, em direção ao que entende ser uma lagoazinha entre marmeleiros de flores amarelas. Carrega o mochilão apoiado sobre a nuca e os ombros, corpo inclinado. O par de tênis, com meias brancas aninhadas, enganchado na alça da mochila pelo cadarço, rodopia no ar. Usa cinto, relógio no pulso e camisa pólo por dentro das calças molhadas. Tudo o que os hippies da Vila abominam, depois do paletó e gravata.

O barqueiro segura as cordas compridas presas ao leme e gira a manivela do motor de centro, lançando rolos de fumaça preta no ar e cheiro de óleo diesel que vem com o vento. Deixou o último passageiro desta travessia do dia e rumou ao continente para pegar mais. Os outros passageiros desembarcaram na Brasília, 15 minutos atrás. Pegaram o barco em Paranaguá e "mataram" um garrafão de vinho barato antes de passar a Ponta Oeste. Pedro Pedra recusou a bebida e o charutão babado que queimaram. Achou muito desoladora a praia do Limoeiro, na primeira parada onde os turistas-porre ficaram e pediu para ser deixado nas Encantadas.

O barqueiro concordou, sem cobrar a mais pelo serviço. Deu uma boa olhada no turista de cabelos curtos, barbeado, que ia curvado na proa, molhando a mão. Nos últimos vinte anos acostumou-se a transportar cabeludos desmanzelados para a Vila de Encantadas. Hippies que optaram não fazer parte do sistema. Tinham respeito pelos outros, pela natureza, pela vida. Eram solidários, de paz, chegavam e sumiam. Gostava da descrição de lugares mágicos que os hippies conheciam. Lugares sem luz elétrica, como a Ilha até 1983. Lugares que ele, que gostava de ser pescador, nunca poderia conhecer, como a cidade em que tudo era feito de pedra, no alto da montanha em Minas, a praia isolada por uma duna de quilômetros, no Ceará, Morro de São Paulo, que ficava na Bahia e era uma Ilha, Trancoso... Desapareceram, engolidos pelo voraz progresso, que tem olhos que sugam energia dos outros, secam fontes cristalinas e matam o que cruza seu caminho de piche.

A maioria era vegetariana, magérrima, adepta da comida integral e tarada por paçoquinha, lembra. Execravam produtos industrializados, não ligavam para rádio e televisão e viviam rindo. Tem vindo um povo diferente agora, comparou o barqueiro, distraído a olhar a cadeia de montanhas do continente...turistas violentos quando drogados, cheios de recalques, que fazem o que não gostam na cidade, para ganhar dinheiro. Emporcalham tudo em volta, com desculpa que falta isso e aquilo... A Ilha começou a perder seu romantismo quando mulheres de garra, com pernas cabeludas, se foram... virou um balneário medíocre.


Jun/06
A Prainha está quase deserta quando chega, aquela hora da tarde. Pedro vê meia dúzia de pessoas andando na areia... Canoas sobre rolos... Turistas de sunga colorida e pescadores de sandália havaiana, calça de tergal e camisa de botão. Pedro estranha a liberdade dos barracos com portas e janelas escancaradas, sem ninguém por perto, abraçados pela densa vegetação. Olha ao redor a procura de um bom lugar para acampar, conferindo discretamente a carteira no bolso de trás. Roçou-a de leve com a ponta dos dedos e deu-se por satisfeito.
- Não molhou! Teve o cuidado de enterrar a carteira, envolta em saco plástico, na nesga de areia onde ficaria a barraca. Ali estavam as notas graúdas para uns vinte dias de estada. Depois instalou o piso da barraca em cima do cofrinho improvisado. Antes certificou-se de que ninguém o espionava. Armou a barraca na clareira às margens do riacho paralelo à praia. Considerou o local perfeito, com água para fazer as refeições e uma praia para tomar sol. Mais um engano. Explorou os arredores e descobriu que a pequena lagoa era um riacho represado na foz. Também descobriu a tempo ainda que o riacho de água límpida era poluído. Não chegou a usar a água nem para lavar a roupa. Soube mais tarde que o ritual de final de tarde dos antigos hippies era seguido pelos barraqueiros: pegar fila no banho de bica. Quem estava na vez já enchia d'água seu vasilhame para matar a sede depois do forró, que ia até meia noite, e para fazer o café na manhã seguinte.
Sentiu a energia boa que os hippies de 70 diziam ter as Encantadas sobre as pessoas, depois de uns banhos de bica e de descarregar a eletricidade do corpo andando descalço. Dois hippies lhe indicaram o caminho.
- O astral era bom nas Encantadas e tinha altas minas.
- Bicho! Pega o buzum de Maringá e na rodo de Curita pega o trem prá Paranaguá e depois um barco prá Ilha.
- Meu! Um desbunde. A Ilha tem um recado para cada um que chega, disseram.

Pontinha. Uma lenda diz que Manoel Louco, que tinha casa na Aroeira, mandava escravos jogar sacos de moedas de ouro ali. Foto Paulo (Jun/06)

Pedro Pedra foi conferir. Estava numa fase ruim. Nada dava certo. Tinha se separado da mulher e, ainda por cima, seus inimigos na política estudantil ameaçaram prendê-lo. Era secretário do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual de Maringá pela terceira vez e descobriram que ele nem estudante era. Mas era filiado do Movimento Democrático Brasileiro, extinto em novembro de 1979. A proximidade de mais uma eleição acirrou os ânimos e alguém resolveu checar se ele era estudante da UEM mesmo. Não era. Pedro Pedra foi parar na Ilha. Gostou, voltou e passou a morar nas Encantadas. De turista para morador da Ilha, sem fonte de renda fixa, como a maioria dos outros moradores "De Fora". Aliás, estava acostumado com as adversidades da vida. Tinha perdido o pai aos 17 anos e aprendeu a se virar.

Costuma repetir para si e para os outros, desde então, que o mundo é dos vivos. Passou para o "status" de morador da Ilha do Mel que, para ele, era muito melhor que o antigo, de morador de vila em Maringá. E logo encontrou gente disposta a provar que o mundo é dos vivos mesmo, o que facilitou sua permanência na Ilha e de outros "De Fora". A fase hippie na Vila de Encantadas, com divisa de terreno cercada de flores, roda de viola e fogueira, nudistas tomando banho de sol, torneira comunitária nas trilhas e onde só dava jacaré nas ondas, estava moribunda. "Levar Vantagem", "Se dar bem", sepultou de vez o "Paz e Amor". Defensores do progresso, que exclui os locais miseráveis, chegaram para lucrar com a situação.

Um televisor preto e branco, instalado na casa que Pedro Pedra alugou para morar, perto do Cachetal, foi a chave para a descoberta do seu sustento na Ilha, sem depender de peixes, do tempo ou de partir para o esquisito.
- Quer trocar por um terreno? Perguntou Cassetete, um pescador que morava ao lado.
Pedro certificou-se dos detalhes da troca, viu o terreno, mediu, marcou as divisas e cuidou dos trâmites legais. Fez o maior negócio de sua vida, até então e aprendeu que podia se dar um jeitinho em tudo. As previsões pessimistas dos amigos conhecedores dos meandros da Ilha, sobre o terreno ser pequeno, fora do padrão e que não podia ter água e luz, ou ser vendido, não se confirmaram. O terreno, de uns oito metros de frente por quinze de comprimento, no caminho principal da Praia de Fora, valorizou-se mais que centenas de TVs do negócio com o Cassetete. Pouco tempo depois uma mulher, de Paranaguá, transformou a TV em dinheiro vivo. Mal coube um chalé pontudo em cima do terreno, com direito à luz e água.


Jun/06
Animado com o sucesso, Pedro Pedra comprou em seguida o segundo terreninho na Vila, no mesmo caminho que liga a Praia de Dentro à Praia de Fora. Usou parte do dinheiro recebido da primeira venda. Outra parte guardou para suas despesas. O terreno também era fora do padrão, próximo da Praia de Dentro, uns 30 metros depois da pinguela sob o riacho do Morro Bento Alves. Mais tarde a pinguela deu lugar a uma ponte de concreto. Ergueu a casa ali com as próprias mãos, emprestando tábuas de um, telhas de outro, comprando outra parte e assim por diante. Às vezes não devolvia o material emprestado. Vez por outra emprestava material sem que o dono soubesse. Aconteceu com o Benjamin, que foi cobrar a dívida de tábuas armado. Pedro Pedra pagou a despesa aterrando o terreno do Benjamin com mais de 500 carrinhos de areia. Ele mesmo fez o serviço. Tirou areia da praia em frente. A barra andava meio pesada na Ilha, que passou a explorar o turismo. Logo vieram os cadeados nos portões, aventalzinho em bujão, toalhinhas sobre a TV e grades nas janelas. Os tempos viva e deixe viver, de noites iluminadas a vela ou lampião, perdem-se na memória. Pedro Pedra tirava pedras do riacho para a base da casa que construía. Daí seu apelido. Pedro virou Pedro Pedra. Logo apareceu comprador para a casa e Pedro Pedra foi parar na Pontinha.

Novamente ergueu um barraquinho de madeira, num terreno fora do padrão, de uns dez metros de frente por 30 de fundos. Vendeu para um ex-empresário do ramo da construção civil, que comprou também o terreno contigüo e regularizou a situação, puxando água e luz. Pedro Pedra voltou a morar no caminho principal da Vila para a Praia de Fora, próximo do campo de futebol e da Estação de Tratamento de Água das Encantadas. O terreno estava dentro do padrão. Media uns 50 metros a testada para o caminho principal por uns 30 de fundos. Vendeu a propriedade para um ex-escrevente do Porto D. Pedro II e comprou outro terreno fora do padrão. Era nas ruínas da casa do Ernesto. Este terreno era todo enrolado. Mesmo assim apareceu interessado, um professor de Londrina, ex-reitor, prestes a se aposentar e Pedro Pedra mudou-se para uma casa vizinha à Biblioteca Vô Lavínio. Ernesto e seu irmão João tocaram o Forró da Ilha na fase áurea e Ernesto, cansado, alugou o ponto para o Zorro.


Forró do João e Ernesto funcionou a bateria até a chegada da luz. Às vezes uma fita tocava a noite inteira. Depois ficou conhecido como Forró do Zorro. Foto: Rodrigo (SP)

 

Pedro Pedra, em dez ou quinze anos, comprou e vendeu mais terrenos nas Encantadas que qualquer um "De Fora", como são chamados os ex-turistas residentes na Ilha. Aproveitou o recado que a Ilha passou a ele. Ficou atrás de nativos que se destacaram pela venda de mais de uma dúzia de terrenos em toda a Ilha. Arlindo foi quem inaugurou o sistema de troca de TV por terreno, bem antes de Pedro Pedra. Hoje tem uma padaria em cima do terreno que Arlindo trocou com o Zico por uma TV. Teve também o Álvaro, que era "De Fora" e trocou uma geladeira velha por um terreno com o Gastão, remador vigoroso da praticagem quando jovem. Uma mulher de meia-idade pagou recentemente mais de cem geladeiras velhas pelo terreno. Tá certo que uma pequena casa pronta que Álvaro ergueu no terreno entrou no negócio. A mulher mora sozinha na casa e deixa janela e porta desafiadoramente abertas de dia. À noite fecha tudo, é claro. Balneário é assim mesmo.


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Continua em julho/08

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