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PARAÍSO E INFERNO * Paulo J. Soavinsky |
| Tem um médico, amigo meu de adolescência, que ameaça puxar o revólver quando alguém lhe diz que a Ilha do Mel é um paraíso. Uma brincadeira, é claro. Meu amigo é um intelectual, daqueles que gostam de música clássica, memorizam trechos de livros, poemas, filmes e identificam pintores por suas obras. Vai ao teatro sempre que lhe dá na telha. A "boutade" é só provocação. Se tivesse que passar um inverno na Ilha, como eu passei... Entediaria-se profundamente. - As conversas se repetem. Logo perceberam que eu não entendo de futebol, truco, mulher e pescaria. Mas gosto de dançar Forró. Um velho televisor preto e branco, cheio de chuvisco e um radinho, que pegava duas estações locais, serviram-me de companhia. Emprestei livros na vizinhança, mas desisti nas primeiras páginas. Nenhum prestava. Reli os que levei.
Meu amigo é um caso a parte. A Ilha do Mel está no plano que o turista com algum recurso faz, no verão, de largar tudo e ir morar em paraísos emergentes do Atlântico Sul. Dois ou três argentinos concretizaram esta intenção, ao lado de centenas de brasileiros de vários estados. Um francês e um alemão também escolheram a Ilha para viver seus dias de meia idade, abrindo pousadas. A correria começou em 1982, ano em que a União passou a Ilha para as mãos do Estado. A data serve como divisor. Os nativos passaram a ser minoria nas mãos do Estado e a não saber mais a quem se dirigir para resolver problemas como esgoto do vizinho na porta ou lixo pelas trilhas. Conforme a ocasião, o Estado empurra as reivindicações para a Prefeitura de Paranaguá, município ao qual a Ilha pertence, e vice-versa. A Ilha do Mel é uma Zona Rural de Paranaguá.
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O sonho de morar no paraíso. |
Antigos hippies engrossam a população fixa de 800 almas que moram em casas ou barracos nas Encantadas, Praia Grande, Brasília, Nova Brasília, Forte e Ponta Oeste, juntamente com dezenas de ex-alguma coisa, que acharam uma maneira de viver da Ilha e ter nova profissão. Uns poucos aposentados da cidade têm renda garantida e transformaram a casa de praia em residência fixa. Das figuras mais notáveis que vivem o sonho de morar na Ilha, destacam-se um ex-presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, um padre e um profissional liberal que mora em uma barraca há cinco anos. Dois ex-deputados, um federal e outro estadual, têm casas na Ilha. Aparecem sempre, mas ficam tão reclusos que ninguém considera que sejam realmente moradores da Ilha.
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Antes da corrida por compra de terrenos, nos tempos de pagamentos de taxas ao Serviço de Patrimônio da União (SPU), podia-se contar nos dedos as pousadas, bares, mercearias e restaurantes autorizados a funcionar. Cerca de 70 pousadas, dezenas de bares e meia-dúzia de restaurantes estão à espera de clientes hoje, nos tempos de Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Mas o número cresce ano após ano. A maioria controlada por turistas que resolveram morar na "paradisíaca" Ilha, de "natureza exuberante", como se referem folhetos pouco criativos de agências de turismo. Deram um jeitinho de comprar terrenos e montar seus rentáveis negócios. O IAP sucedeu o antigo Instituto de Terras e Cartografia (ITCF) no comando dos destinos da Ilha. A compra e venda de terrenos na Ilha é proibida desde 1982. |
Na Prainha, a maioria dos terrenos de frente para o mar
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Fundos também está tomado. Terreno padrão (15X30 m) pode ter água e luz. |
Tenho observado que a maioria dos mais de 100 mil turistas que põe os olhos anualmente em três ícones da Ilha, a Gruta das Encantadas, o Farol das Conchas e a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, tende a ser mais complacente que crítico. E a mesma disposição se repete com aqueles que se estabelecem na Ilha. Uma complacência aquecida pelo sol, pela quase nudez dos corpos, em troca de paisagens e pores de sol que só a Ilha oferece, da água praticamente sem poluição das praias de fora que o turista mergulha ou pela cordialidade dos moradores. Comerciantes, vendedores de iguarias, roupas, passeios e quinquilharias exibem um sorriso Sílvio Santos por toda a temporada, sem cansar.
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![]() Trapiche torto na Brasília |
Observei também que o turista complacente, surpreendentemente jovens estudantes, em sua maioria, vai relevando algumas coisas, para não se aborrecer. Da cerveja quente e cara, servida por garçons que há um mês eram ajudantes de pedreiros, ao cheiro ruim que vem dos riachos que cortam Encantadas, Farol e Forte no verão. Complacentes com exageros em propagandas, com informações distorcidas na mídia e com a falta de estrutura urbana para recebê-los condignamente. Eles pagam pelo privilégio de conhecer a Ilha e aumenta, ano a ano, o número de visitantes. |
Um outro intelectual amigo meu, diz que os jovens são o produto final de uma educação de massa, onde há mais lugares vagos em faculdades e universidades que interessados em obter o diploma mediante pagamento de mensalidades exorbitantes. Parecem não se importar. Vez ou outra eles trabalham de graça para Organizações Não Governamentais (ONGs), que adoram aparecer na televisão distribuindo saquinhos plásticos para turistas levarem seu lixo no verão e camisinhas de vênus no Carnaval.
Desembarque precário.
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A Ilha não tem saneamento básico para mil pessoas. O número máximo de visitantes que é permitido pisar sobre suas dezenas de praias no verão é 5 mil. Número só atingido em feriados prolongados, como Carnaval e Semana da Pátria. Ou no final do ano, quando ocorrem férias coletivas. Gringos desavisados podem ir parar, na volta da Ilha, num hospital da Europa ou América do Norte, com uma dessas doenças transmitidas pela água poluída que seus médicos estudam por curiosidade, preocupa-se meu amigo intelectual. A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda que o tratamento de esgotos atinja pelo menos 50% da população.
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Não é preciso ir muito longe para se entender o porquê do conformismo dos jovens sul-americanos quanto à falta de infra-estrutura na Ilha do Mel. O município mais próximo da Ilha, Pontal do Paraná, quatro quilômetros a oeste, tem uma população fixa de quase três vezes a da Ilha do Mel no verão e também, na entrada do século XXI, não tinha um metro de rede de esgoto. Pontal do Paraná foi criado por lei em 1995, desmembrado de Paranaguá.
Paranaguá fica mais ao Norte, tem mais de 100 mil habitantes e também não tem uma rede de esgotos aceitável pelos padrões da ONU. No Paraná, quase um quarto da população de 10 milhões de habitantes é atendida com esgoto. No Brasil, quase a metade dos mais de 5 mil municípios não tem coleta de esgotos. Em países vizinhos a coisa se repete. Exigir coleta e tratamento do esgoto, antes de jogá-lo ao mar ou rio, no lugar em que se vive, é prioridade racional. Mas só os considerados aluados o fazem. Uma conveniência social: os loucos na frente. |
Em 2002 a taxa de mortalidade infantil de Paranaguá era de 28,23 por mil. Fonte CEE |
Outro dia vi duas crianças, dois meninos de uns oito anos, brincando com um barquinho, debaixo de um pontilhão suportado por pilares de trilhos de ferro na praia de Encantadas. As águas de dois riachos se encontram metros antes do pontilhão. Água suja, cor de café e fedendo a fossa. Eles enfiavam as mãos nuas naquela água, com naturalidade infantil. Passavam a mão no rosto, na boca. Ninguém se importou de tirá-los dali. Olhei para ver se identificava pais nas pessoas em volta. Três pescadores sentados à sombra de uma Aroeira, um casal de turistas que bebia cerveja numa mesa próxima e dois passantes. Passado mais um tempo, não resisti e toquei os meninos daquela água. Eles não queriam ir embora. - Você não é meu pai. Disse o menino menor, com voz fina. As explicações não surtiram o menor efeito sobre eles. Saíram dali a contragosto. Talvez tenham almoçado naquele dia sem lavar as mãos. Talvez tenham sido hospitalizados naquele mês. A ONU diz que 60% dos internamentos são decorrentes da falta de saneamento básico.
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![]() Tá na hora de remar para o mesmo lado |
Outro exemplo de desinformação encontrei dia destes, fuçando a rede de informações mundial. O sítio ver. afirma que a Ilha foi ocupada por militares alemães durante a segunda guerra mundial e que trilheiros podem dar de cara com jaguatiricas na mata nativa. Há mais absurdos na rede, mas não vamos reproduzí-los todos. Seria insano. O volume de lorotas é oceânico. Alguém pode acreditar que os nazistas ocuparam o País, via Ilha do Mel? Só mais uma das absurdas "reportagens". Pode ser lida no sítiover. Ali o distinto candidato a turista desinformado pode verificar que: "Para se ter uma idéia da tranqüilidade que impera no lugar, o número de turistas é limitado e veículos motorizados não têm acesso. As visitas podem ser feitas a pé, de bicicleta (sic) ou de barco". Alguns parágrafos abaixo, o "repórter" que não assinou a, hum, digamos assim, reportagem, "informa" que: "A Praia do Forte ou da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres foi construída (sic) para defender a Baía de Paranaguá. O lugar é ideal para quem deseja se isolar dos problemas do mundo e curtir toda exuberância da natureza. Fazer caminhadas ou conhecer um pouco da história do Brasil são alguns dos programas imperdíveis do lugar. Nas suas extremidades (sic) encontram-se várias piscinas naturais e até pequenas grutas. A praia é passagem obrigatória (sic) para a Praia do Miguel, que ainda se mantém selvagem".
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Tem também um tal de Almirante Mel, que a Marinha desconhece, mas freqüentemente aparece para justificar o nome da Ilha, como se estivesse enterrado no cemitério local e sua família fosse uma das mais tradicionais do balneário, onde se destacam os Valentin, os Neves, os Agostinho, os Veigas e Da Silva. Paranaguá, Pontal do Sul e Matinhos, cidades mais próximas da Ilha, onde supostamente teria vivido o Almirante Mehl e sua família, não têm uma rua sequer com seu nome, ou mesmo uma praça, um jardinete, uma travessa, um beco. Nenhuma singela homenagem a tão ilustre desconhecido. Nesses anos todos nenhum vereador lembrou-se dele.
Em Curitiba, a Capital do Estado do Paraná, tem as ruas Almirante Tamandaré e Almirante Gonçalves. Nenhuma com o nome de Almirante Mehl. Em um mapa da Baía de Paranaguá, feito em 1653, já consta o nome "Do Mel", para a Ilha. O mapa faz parte do acervo do ministério das Relações Exteriores e foi confeccionado por ordem do General Eleodoro Ébano, da Armada das Canoas de Guerra da Costa e Mar do Sul. Outro, de 1666 também traz o nome "Ilha do Mel" impresso. Pode ser encontrado no livro "Baía de Paranaguá - Mapas e Histórias".
A estória do Almirante Mehl é outra lorota repetida milhares de vezes. Assim, de Almirante que nunca existiu à Nossa Senhora dos Prazeres, que dá nome a dois Fortes no Brasil, a Ilha vai vivendo. O outro fica na cidade de Paulista, Pernambuco. É o Forte de Pau Amarelo. Foi construído em 1729 e também é conhecido como Forte de Nossa Senhora dos Prazeres. O Rei de Portugal Dom José I, mandou erguer o Forte da Ilha em 1767.
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Planta de 1653 (Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores, segundo SOARES, C.R. & LANA, P.C. 1994. Baía de Paranaguá - Mapas e histórias. Curitiba, Ed. UFPR, 17p.) com legenda alfabética onde se lê, claramente, "Ilha domel", ao lado esquerdo da letra "A" maiúscula e, à direita, na mesma linha, "Barradevbupetiba" ou "Barradevbupetuva (letras finais confusas). |
* Jornalista
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