Abr/05
* Paulo J. Soavinsky
CAPÍTULO III
Anhangüera
Uma multidão em frente ao Posto da Polícia, na Brasília, queria linchar o índio e os dois pescadores presos no barco ao largo. Alguns imploravam para que os soldados entregassem os acusados, para que a justiça fosse feita rapidamente. O sargento não permitiu. Chamou reforços e preparou a saída dos acusados, bem cedo, para a Cadeia Pública de Paranaguá. O índio permaneceu o tempo todo de boca fechada, alheio às acusações. A vítima também mantinha-se incomunicável, devido ao seu estado de saúde.
Álvaro e seu parceiro encontraram-se na sala em que estava o acusado, prestes a ser removido para Paranaguá. Tinha a postura de um guerreiro Inca, imprópria de um culpado, percebeu Álvaro, de relance.
- Onde é que você estava? Perguntou Álvaro, puxando o companheiro para uma sala vazia. Não recebeu meu recado?
- Não recebi nada, disse Wilson, assim que a porta da sala fechou. Estava do lado de fora, de olho num sujeito bêbado, estrangeiro. Vi quando você apareceu na porta do bailão, mas perdi o cara de vista e segui o homem errado. Quando percebi o erro, era tarde. Voltei e cruzei com o grupo de buscas. Tentei ligar para você. Foi uma correria.
Não deu para conversar muito. Uma movimentação indicava que os prisioneiros seriam levados até a praia, onde um barco com mais soldados armados aguardava. Os dois tiras saíram da sala e foram ajudar no cordão de proteção, juntamente com os parceiros das Encantadas. Levaram alguns chutes da multidão enfurecida, que queria promover o linchamento. Uma garrafa acertou a cabeça de um policial.
A polícia ouviu o namorado da vítima, no outro dia, após a chegada dos prisioneiros. O inquérito aberto ganhava corpo. O namorado não reconheceu o índio preso. Disse que estava muito escuro, não deu para ver nada. Se o índio falasse, ele poderia reconhecer a voz. Mas o acusado não abria a boca. Os pescadores do barco foram soltos, dias depois, por falta de provas. Disseram que não conheciam o acusado. Nenhuma arma foi encontrada. Os médicos demoravam para dar alta à vítima e impediram que a polícia a ouvisse no hospital. Só o depoimento dela poderia manter a prisão do índio.
Quando ele resolveu abrir a boca, frente ao escrivão, cerca de 15 dias se foram. O delegado Alaor Júnior, neto do antigo delegado, foi chamado às pressas. O índio falava uma língua estranha, em resposta às perguntas do escrivão. Alaor e os investigadores que queriam ver o caso encerrado logo, ficaram com raiva do índio, achando que ele estava zombando deles.
O índio estava fraco. Procurava manter a custo sua altivez. Desde a prisão no mar que não comia nada. O carcereiro não se importava com ele. Mantinha um desprezo absoluto por "duques", que era como denominavam os estupradores na cadeia.
Dias depois o delegado Alaor convenceu-se da greve de fome do índio e entrou em contato com a Funai, para que mandasse um tradutor. O especialista apareceu só depois que o caso ganhou as manchetes dos jornais. O índio preso não se alimentava há uns 25 dias. Só tomava água. Com a repercussão negativa, já que ninguém conseguia fazer com que o índio se alimentasse, um antropologista, com especialização em línguas indígenas e dialetos, foi convocado. Ele pegou o primeiro vôo de Brasília, a Capital do País, para Curitiba.
Era grande a expectativa, quando o famoso antropólogo entrou na cadeia, acompanhado por holofotes da televisão nacional. A imprensa local foi mantida à distância, aguardando a sua vez, ao lado das autoridades estaduais e municipais. Mesmo o forte cheiro de creolina na cadeia não dissimulava um fedor maior, de carniça. Os presos, limpos e bem vestidos, se espremiam no pequeno espaço que tinham. Eram 180 onde cabiam, no máximo, 24.
Uns dias antes do caso do índio estuprador, em greve de fome, explodir na imprensa, a cadeia tinha 250 presos. O delegado cuidou para que alguns fossem embora. Principalmente os que tinham doenças contagiosas, como tuberculose. As autoridades entraram na cela onde estava deitado o acusado, com máscaras cobrindo o nariz e a boca. Tinham providenciado até um colchonete para o índio ser filmado.
-Ele é um Mbya, atestou o famoso antropólogo, após dez minutos de expectativa. Álvaro tinha conseguido um bom lugar, logo atrás do antropólogo, graças às amizades que tinha com autoridades de Brasília. Acompanhou tudo de perto. Mal dava para ouvir os sussurros do índio.
- O antropológo, que precisou encostar a orelha na boca do acusado, disse que ele vinha da montanha branca, tinha caminhado mais de 3 mil quilômetros, pelo Caminho do Peabiru, para vencer o mal (Anhangüera) e tinha fracassado. Que por isto merecia morrer. Que lutou contra o mal na noite da sua prisão, para salvar da morte a linda mulher de olho falso. Que o mal tinha garras afiadas, que o arranharam. Que o mal possuía mulheres com olhos bonitos, de cada parte do mundo, para que, através dos olhos delas fosse revelado o segredo das afortunadas Sete Ilhas, com as Sete Cidades. Que matava as que tinham olho falso. Que Anhangüera matou mais de dez mulheres, nos últimos vinte anos, a última ano passado. Que padres e freiras tentaram evitar a morte dela, mas não conseguiram. Que o mal tinha cara de lua cheia e falava várias línguas. Que ele foi impedido, por homens brancos, de prosseguir na perseguição do mal, que nadava a sua frente. Que o mal tinha escapado e iria estuprar e matar mais mulheres de olhos bonitos. Que caso o mal conseguisse seu intento, a Terra iria arder em fogo e todos morreriam, menos os moradores das Sete Ilhas. Os Mbya, povo eleito por Nhanderu, iriam sobreviver, como sempre sobreviveram, na selva, sem muito contato com o branco. Que os Mbya sempre foram poucos. Que não gostavam do que Anhangüera fazia para obter o mapa do tesouro das Sete Cidades. Logo após a entrevista com o famoso antropólogo, o índio acusado morreu.
O delegado mal podia esconder sua irritação. O antropólogo não cumpriu suas ordens de interrogar o índio sobre o caso. E para complicar, a vítima de Anhangüera morreu quase ao mesmo tempo, na UTI do hospital, sem poder apontar seu algoz. Mas para a polícia, o caso estava encerrado. O índio era o culpado, diante das evidências.
Mas Álvaro ficou na dúvida, principalmente por algo que não tinha contado a ninguém, de vergonha. Quando dava a volta, para atingir a pousada do casal, o mais rapidamente possível, passou por uma trilha pouco usada e ouviu barulhos estranhos no mato, como se dois bichos ferozes estivessem se engalfinhando. Puxou da arma, amedrontado com os gritos animalescos e ficou imóvel. Uma bola de fogo azul veio em sua direção e ele correu, correu como nunca tinha corrido em sua vida. A bola partiu-se em duas, sobre a sua cabeça e mergulhou no mar.
Meses depois, quando o caso já tinha sido esquecido, lembrou-se de perguntar a Beto, quais eram os outros dois mistérios da ilha. - Nós temos o mistério das botucas, que atacam só no norte da ilha, no final do ano, entre as luas novas, e o mistério do dinheiro da taxa de visitação, que ninguém sabe para onde vai, respondeu Beto. - Ãh, respondeu Álvaro, com o pensamento distante. Tinha comprado um barraco na ilha e passou a freqüentar o forró, todas as noites sem lua.
* Jornalista