Abr/05

TRÊS MISTÉRIOS DA ILHA

* Paulo J. Soavinsky

CAPÍTULO II

O caso da japonesa

Uma equipe completa de investigadores passou a morar nas Encantadas e Farol, disfarçadamente, sob o comando de Álvaro e supervisão do Doutor. Montaram esquemas táticos, turnos de trabalho e, principalmente, o perfil do criminoso e das vítimas. Estas eram todas bonitas. Ficavam atentos nos feriadões que se seguiam, mês a mês, e vigiavam de perto as mulheres que mais se sobressaíam nos forrós, pela beleza. Ninguém mais sabia que a melhor equipe da polícia, para o caso, estava agindo para pegar o criminoso de surpresa. Um jardineiro, do norte do País, foi preso, sem muito alarde, logo no início da operação. A menina de 12 anos o reconheceu. A família ficou muito temerosa e contrariada com a imprensa. Tinha abafado o caso e deixado um estuprador à solta. Mas ele não era o alvo principal do esquema montado para capturar o estuprador de mulheres bonitas em série. Era culpado do caso da menor, admitiu posteriormente. A caçada continuou.

Nada de novo aconteceu, até a chegada de mais um verão. Eram dias e dias monótonos, de conversas fiadas, churrascadas, bebedeiras e pescarias. E madrugadas de vigília estéril. Mas em fevereiro, uma japonesa, muito bonita, de olhos verdes, apareceu no Farol e passou a ser seguida pelos homens do Doutor. Ela e o namorado não perceberam nada, tal a discrição dos investigadores. Psicólogas da polícia, em entrevistas com as vítimas que se dispuseram a falar, haviam levantado uma repetição importante. Era certeza. O estuprador em série só atacava mulheres bonitas e em noites sem luar.

Álvaro estava atento ao serviço, no interior de um bailão do Farol, quando percebeu que um sujeito alto, forte, com cara de índio, apenas de calção e cabelos cortados como se tivessem usado uma cuia como molde, não tirava os olhos da japonesa. Ficou o tempo todo parado, num canto escuro. Mal dava para notar que ali havia uma pessoa. Álvaro avisou, pelo celular, seu parceiro Wilson, que vigiava o lado de fora do forró. Na saída do casal do bailão, Álvaro havia perdido de vista, por um instante, o sujeito do canto escuro, ao procurar seu parceiro. Não o enxergou e como o casal já tinha penetrado na escuridão, resolveu seguí-los imediatamente, guardando razoável distância. Assim que seus olhos se acostumaram à escuridão, percebeu que o casal era seguido por um estrangeiro, que parecia estar embriagado. O porte era parecido com o do índio no salão.

Era madrugada escura e os dois, a japa e o namorado, estavam meio altos. Caminhavam despreocupados, em direção à pousada. Nem ligaram para o estrangeiro bêbado atrás deles. Meia hora depois de entrarem, o bêbado ainda vigiava a pousada, agachado em um matagal, cerca de três metros do caminho principal. Álvaro deu o alerta, via celular. A turma das Encantadas pôs-se a caminho, para dar apoio. Havia luz no quarto do casal e o vento trazia as vozes e risinhos abafados dela. O bêbado nem imaginava que estavam vigiando-o, também.

Porém, a porta do quarto do casal abriu, de repente, e a luz do interior projetou um facho na mata. Álvaro ficou à vista. O suspeito percebeu que havia alguém a suas costas, pelo barulho de um graveto quebrado. Álvaro lamentou a má sorte, intimamente. Tentou se esconder da luz súbita, mas fez barulho na passada em falso. Mesmo assim, permaneceu firme atrás de uma árvore fina, que mal escondia sua barriga. O jogo de sombras projetadas na mata rala podia salvar a situação, pensou. Ficou quieto por uns dois longos minutos, até sentir uma queimação nas pernas. Eram formigas vermelhas. Não agüentou as ferroadas e saiu do esconderijo, disfarçando, levantando a bermuda e esfregando as pernas. Fingiu estar bêbado, praguejou alto contra as formigas, esfregou as pernas e, depois, passou em frente do suspeito, sumindo na escuridão. Não sem antes falar alto:
- Merda! Não dá nem para se cagar em paz. É gente, é formiga.

Ficou tranqüilo, pensando que seu parceiro estava de olho, em algum lugar da mata escura, porém sem poder dar retorno a sua mensagem. Para não estragar o serviço, andou mais do que o necessário, dando uma volta de uns cinco minutos, para sair na praia e então pegar outro caminho, em direção à pousada. Confiava que, se houvesse algo estranho, seu parceiro daria em jeito de entrar em contato.

Nesse meio tempo, o casal resolveu sair do quarto e ir para a praia em frente. O suspeito não perdeu tempo. Desenterrou uma arma envolta em plástico, escondida na raiz de uma Figueira e seguiu-os, silenciosamente. Assim que deu oportunidade, sacou da arma e disse, ameaçador, pelas costas dos dois: - Quietos, senão eu mato um. Apaga a lanterna e tira a roupa. Cutucou o namorado da japonesa com a arma. Ele obedeceu prontamente, pálido com o susto. Ela nada falou, de tão assustada com a aparição. Assim que ficou pelado o namorado, ele mandou que corresse, cutucando forte suas costelas, com a arma. Sem perda de tempo, deu um "mata-leão" na japa e arrastou-a para fora do carreiro principal. Ela desmaiou, sufocada com o aperto do braço dele em sua garganta.

O rapaz pelado correu para um posto da polícia. Ganhou um calção e partiu para as buscas, juntamente com cerca de meia dúzia de soldados. Vasculharam o caminho e seguiram andando pela praia, em direção ao Farol, à procura de vestígios da japa e do suspeito. Wilson, que não tinha recebido a mensagem de Álvaro pelo celular, somou-se ao grupo de buscas. Tentou avisar o chefe, pelo celular, mas não deu sinal. Logo outras pessoas apareceram e uma multidão, com lanternas tremelicantes, passou a vasculhar cada palmo do carreiro e da praia.

Um rastro de sangue em frente a uma pousada, à beira-mar, foi seguido, freneticamente, até encontrarem a japa agonizando. Tinha o queixo quebrado, uma lente de contato havia perfurado o olho esquerdo e o rosto estava horrivelmente disforme. Foi socorrida no postinho de saúde. O médico foi acordado às pressas. Ainda de madrugada, levada por uma lancha, foi parar numa UTI em Paranaguá.

As buscas que se seguiram foram infrutíferas. Ninguém achava o criminoso. Parecia que tinha se volatizado. A dona da pousada onde o casal estava hospedado, também tinha acordado, antes do raiar do dia, e perguntou ao sargento que comandava as buscas, se podia ajudar. Ele disse que sim, pensando com seus botões:
- Só me faltava esta.
A mulher, que tem dons especiais, então falou, para o sargento e para o grupo, que já não sabia mais o que fazer:
- Procurem no mar. É um homem do mar, quem fez esta atrocidade.
O sargento e o grupo acharam boa a idéia e partiram para mais buscas, desta vez se concentrando nos barcos que estavam ao largo.
Um barco pesqueiro chamou a atenção, por fechar e abrir, repetidas vezes, uma escotilha iluminada, como se estivesse sinalizando para alguém.
Imediatamente uma voadeira com soldados a bordo, partiu em direção ao barco. No caminho encontraram um homem nadando na escuridão, na direção do barco. Foi puxado para a voadeira e algemado. Tinha o rosto e o corpo arranhados. Era o índio que não tirava os olhos da japonesa no Forró.

CONTINUA EM JUN/05

* Jornalista

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