Abr/05

TRÊS MISTÉRIOS DA ILHA

* Paulo J. Soavinsky

CAPÍTULO I

O caso da professora

Os dois velhos amigos conversam à beira-mar, sentados à sombra de um desnecessário guarda-sol. Fez muito calor aquele dia, com o sol rompendo cedo a cerração e, agora, se pondo como um quadro impossível de ser retratado . Era meados de abril e ainda dava para entrar na água. O verão esticado contentou turistas tardios e moradores, principalmente estes, com a entrada de um dinheiro extra e a perspectiva de um feriadão gordo para maio.

Sentados ao lado e atrás de Álvaro e Beto, os últimos turistas estrangeiros da temporada, a maioria jovens, acompanham o sol se pôr, como os dois cinquentões. Os fregueses ocupam as duas primeiras fileiras de mesas do restaurante do Carlos, como chamam os freqüentadores mais assíduos. As mesas destas fileiras são as preferidas para se ver o espetáculo. Com exceção dos garçons, sentados na mesa da diretoria, próxima do caixa, o restaurante permanece vazio ao fundo. Dois casais à esquerda dos dois amigos, gregos e israelenses, também molham os pés nas lambidas das ondas, que enterraram as cadeiras até a metade na areia.

- Não parece grego, diz Álvaro, que é policial aposentado, referindo-se ao tipo encorpado, moreno, rosto redondo e com cabelos à rastafari, que ocupa a última mesa da linha de praia, na companhia de uma bela jovem.
- Mas é, encontrei-o no barco da travessia. Esqueci seu nome. Fala portunhol. Disse que era designer. Outra noite até bebemos juntos. A mulher eu não conheço.
- Pode até ser um destes tipos que se fazem passar por turistas, para tirar alguma vantagem, mas não acredito. Respondeu a contento algumas perguntas que fiz sobre seu país.
- Vocês jornalistas, respondeu Álvaro, pensam que com algumas perguntas resolvem tudo.
- E vocês, policiais, pensam que a aparência é tudo e é só baixar o cacete para se ter uma confissão prontinha em mãos, provoquei.
Um prolongado silêncio entre os dois fez com que a cerveja terminasse. Bebericavam um restinho no copo, pensativos, olhando o pôr-do-sol, cada qual com seus fantasmas. Uma nova cerveja foi servida, sem que eles abrissem a boca. Beto preparou sua máquina digital, quando percebeu que um navio ameaçava tapar o sol, saindo pelo canal da Galheta. Esperou ele se aproximar e clicou várias vezes. Depois, guardando a máquina, disse, com ar casual:
- Sabe, a Ilha tem um crime insolúvel. Uma mulher, professora de Educação Física, que apareceu morta, nua, na Praia da Bóia. Álvaro mostrou interesse profissional pelo caso. Quis saber mais detalhes.
- É só o que sei, menti propositalmente. Na época o caso não me chamou tanto a atenção. Foi o primeiro assassinato, até onde sei. Mas depois, quando passei a morar aqui, percebi que era mais grave do que se imaginava.
Álvaro ajeitou-se na cadeira, virou-se e pediu um estanheguer na passagem do garçon.
- Pô, protestei, tem a pinga do Diquinho em casa e você vai beber estanheguer? A pinga é de Morretes, uma bela cidade histórica, como Paranaguá, só que mais conservada e com ruas de paralelepípedos. Fica ao pé da cadeia de montanhas conhecidas como Marumbi e é cortada pela Estrada da Graciosa. O trem chega nas duas. - Conte o que você viu. Nem ligou para o meu protesto. Você foi ver o corpo, não foi? Jornalista é curiooooso. Brincou meu amigo, prolongando os o.
- Não vi o corpo. Na época eu não morava aqui, como já disse. Mas me interessei pelo caso assim que soube da história e cheguei a telefonar para o delegado Alaor, de Paranaguá.
- Afogada, me disse o delegado. A mulher morava em Pinhais ou Piraquara. Foi há uns vinte anos. Na época não tinha polícia na Ilha. Removeram o corpo e acabaram com possíveis pistas. Os moradores acharam que foi morte acidental. Uma bebedeira e um banho noturno que acabou em tragédia para a moça.
- Um, deixa eu ver, disse Álvaro, já bem humorado, e as roupas da moça?
- Na mosca, respondi. Não foram encontradas. Sempre confiei no instinto policial de meu amigo. Aguardei em silêncio uma nova pergunta.
- Seu danado, você está me testando. Agora pouco me falou que não sabia muita coisa e me diz, com essa cara de pau, que as roupas nunca foram encontradas.
- Pois é, eu menti.
- Me diz ai o que você descobriu, seu safado. Não que eu vá atrás, quero curtir minha aposentadoria, mas agora quero saber.
- Depois da janta eu conto, mas quero ouvir primeiro sua impressão.
- Mas ela sabia nadar, não é, questionou Álvaro. O curso que ela fez, eles aprendem a nadar também.
- Na mosca de novo. Quero que você pense. Vamos falar de outra coisa. Chega de crime.
Não teve jantar algum aquela noite. Bebemos muita cerveja e meu amigo exagerou nas doses de estanheguer. Fomos parar no Forró do Buraco Verde. Logo que chegamos, debaixo de chuva, um pescador tirou uma bicha para dançar e continuou dançando, mesmo com o salão inteiro tirando sarro. A bichona era feia, alta, magra e usava vestido com salto alto. O pescador era baixinho. Não deram bola para a platéia. No outro canto, na entrada do banheiro, um garçon enfiou a mão na cara da namorada. Além do pescador, cinco casais de mulheres dançavam. Algumas eram sapatonas, visivelmente. Vi que o clima estava pesado e fui dormir por volta da meia noite. Meu amigo continuou até o final do baile, se divertindo com a bizarrice do local e dançando com a mulherada solta. Com a chuva, a casa lotou.

Tinha até uma excursão de seminaristas, padres e freiras italianas, cerca de 15 pessoas, em trajes comuns, me contou depois o meu amigo. - Tentei tirar uma freira de olho azul para dançar. Ela recusou e ficamos conversando. Foi ai que eu soube que eram seminaristas.
- Ficaram apenas olhando, olhando. Tinha uns americanos, argentinas que rodam o mundo vendendo bijuterias e um grupinho de australianos também. O resto era tudo nativo ou empregados que largaram o serviço para cair no Forró.

Só no outro dia retomamos a conversa, sentados na Praça de Alimentação, vendo as ondas da Praia de Fora, debaixo de um tempo brusco. Passei mais alguns detalhes do crime, para aguçar o espírito investigativo de Álvaro. Era hora do almoço e pedimos uma pratada de peixe frito, para acompanhar a primeira cerveja do dia. O casal de israelenses do dia anterior se aproximou e pediu informações, primeiro ele, em inglês. Depois, ela, em portunhol. Eu e meu amigo somos analfas em inglês.

Acabaram sentando conosco e pedindo um almoço também, depois que informei sobre a maré cheia e as dificuldades que enfrentariam para chegar a pé até o Farol. Tinha o Morro do Sabão, liso depois da chuva. Fiz mímica de escorregar. Tinha as pedras da Bica. O "Espreme Gordo". Umas duas horas de caminhada, sem forçar.

Nos entendíamos muito bem, ou achávamos que sim. Lá pelo meio da tarde, depois de uma dúzia de cervejas, sem estanheguer desta vez, rolou um papo de música e ela perguntou o que era fandango. Já que não adiantava explicar mesmo, convidei o casal para ouvir um fandango e comer um peixe assado em casa. Eles toparam.

Saímos da Praça e fomos para minha casa, pelo caminho da Gruta. Na passagem, disse para Álvaro, sem que o casal entendesse.
- Aqui é a Praia da Bóia. Meu amigo ficou para trás, estudando o local. Já estávamos dentro de casa, ouvindo a música, quando voltou. O garrafão da pinga do Diquinho estava à vista. O peixe, um Pampano pescado pelo Biela, estava quase descongelado embaixo da torneira e com o ventilador ligado. Ela não quis provar a pinga orgânica, mas ele já estava no segundo ou terceiro martelinho.

- Melhor que uísque, repetia, depois que eu lhe ensinei a frase.
Percebi que ela, discretamente, fez um sinal para ele parar de beber. Ela era baixinha, cabelos curtos, usava óculos e tinha cara ao mesmo tempo séria e juvenil. Trabalhava em hotel, me contou. Ele era estudante de Marketing. Por alguma razão, achei que os dois mentiam.
Comendo peixe, bebendo pinga e ouvindo fitas de Fandango, Côco, Vanerão, Gauchescas e dos novos talentos do Paraná, entramos noite a dentro. A certa altura, resolvi perguntar a ela sobre o muro que divide israelenses e palestinos. Comparei com o muro que dividiu os alemães e o muro que divide mexicanos e americanos. Ela fechou a cara, desconversou e assim que deu chance, foram embora, sorridentes.

Acabamos com a água mineral à noite. Nenhuma dor de cabeça. Só eu levantei umas duas ou três vezes para mijar e beber água. Retornamos ao crime da professora na manhã seguinte, tomando café com pilhas de pratos sujos e panelas na pia. Também tinha formigas na mesa.
- E daí, perguntei, depois de umas três xícaras de café com mel e pão de centeio.
- Daí o quê, respondeu Álvaro, fingindo ignorar o assunto.
- Você viu o local e acredito que foi falar com alguém também.
- É verdade. Fiz umas perguntas por aí e fui falar com o Deco. Boa memória, apesar de velho.
- E então?
- Ele disse que viu o corpo naquela manhã e que não tinha marcas. Disse também que ela foi vista com alguém no Forró.
- Exato. Está no inquérito.
- E que ela foi estuprada.
- Confere com o laudo do IML.
- Não precisa ser gênio para concluir que ela foi andando ou carregada até o local e que tomou alguma droga, "Boa Noite Cinderela" talvez. Foi estuprada inconsciente e, depois, morta afogada, sem reação. Ela poderia reconhecer o autor ou autores do crime, por isso foi morta. - Essa também é a minha hipótese. - Mas e o cara do Forró. - Ninguém conhecia. Alguém de fora. Várias descrições conflitantes. - O Alaor desconfiava dos pescadores. Achava que o tal desconhecido nunca existiu. Um complô para encobrir os verdadeiros autores.
- Quer dizer que temos um assassino à solta, andando por ai, espreitando a próxima vítima, concluiu Álvaro. Depois pensou um pouco e perguntou: - Tem mais casos, não é?
- Tem sim, respondi. Cerca de vinte a vinte e cinco estupros. A maioria sem queixa. No verão passado ele atacou uma menina de 12 anos, filha de gente muito rica. Média de um crime por verão.
- Eu já adivinhava, respondeu Álvaro, franzindo a testa. Não me enrole mais, quero todos os detalhes e vou passar o caso para o Doutor. Foi por isso que você me convidou para pescar, né seu safado. Sabia que eu ia me interessar pelo caso.
- Quero o furo de reportagem.

CONTINUA EM MAIO/05

* Jornalista

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