SET/05

LEITURA ERRADA

* Paulo J. Soavinsky

Manja a tipa. Livro na mão, debaixo do maior sol, como quem não quer nada e ao mesmo tempo um luminoso de estrada. Motel. Se aproxima, senta perto. Logo, logo, vão estar no maior papo. Continuo a observar. Ele tira um cigarro, pede fogo e ela joga o livro nele. Não entendo o que ela diz, estou muito longe. Agora quem se aproxima sou eu. Ainda peguei um filho-da-puta dela no ar e dois tomar no cu, dele.

Ai, claro, me interessei pelo livro caído. Quem seria o autor, qual o título. Definitivamente não era um destes expoentes de listas jabaculê de revistas semanais boazinhas, que donas de casa levam para a cama sem trauma. Literatura marginal, devia ser. Livro de autor desconhecido. Sem bússola e com o barco fazendo água na noite tempestuosa. Sem mapa e perdido na vila suja, fedorenta e perigosa. Resenhista que se preza, certamente pensaria duas vezes antes de colocar os chavões instigante e promessa da nova literatura, para apresentação de praxe ao uniformizado grande público.

Os dois já estavam engalfinhados. Ela acertou um chute no saco dele e ele uma porrada no olho dela. A turma do deixa disso chegou e entrou na dança. Uma dona-de-casa grandalhona, com uma lata de cerveja na mão, se aproximou e foi a nocaute. A lata voou e caiu na cabeça de um carequinha, sentado atrás com a mulher e dois filhos pequenos que brincavam de castelo de areia, com baldinhos e pazinhas coloridas. Acertou uma veia forte. A cara encheu de sangue. A mulher começou a gritar. Dois salva-vidas parrudos chegaram e imobilizaram o cara do cigarro. A mulher do carequinha gritava que foi ela quem começou, apontando para a mulher do olho roxo.

A mulher do olho roxo aproveitou a deixa e socou o homem do cigarro. Quatro amigos dele chegaram na corrida e meteram porrada nela. Uns surfistas bombados se indignaram: - Covardes, batendo em mulher. Largaram as pranchas e partiram para cima dos amigos do galã do cigarro. Dois dos surfistas demonstraram suas habilidades em artes marciais. Dava para escutar as costelas quebrando.

Pensei em pegar o livro entre as pernas que não paravam de surgir e sair correndo para um lugar mais seguro. Desisti. Fiquei por perto, costeando a turba, com um olho nos briguentos e outro no livro aberto, as folhas indo para lá e pra cá, ao sabor do vento. Podia sobrar prá mim. Tinha esperança que alguém chutasse o livro para fora ou que a massa mudasse de ringue e desse para ver o título ou o autor, sem ter um braço quebrado.

Um tatuado teve mais sorte. Juntou o livro. Na maior cara de pau, guardou na sacolinha que trazia a tira colo. Não era esse o chute que eu pensei. Um pivete aproveitou a confusão e furtou uma das pranchas. Já ia longe quando os surfistas perceberam. Saíram atrás, aos gritos de pega-ladrão. O furacão foi para o outro lado e eu, não querendo começar uma nova briga, fiquei bem quieto no meu canto. O tatuado sumiu com o livro.

* Jornalista

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