Set/01

GUIA AZUL

* Paulo J. Soavinsky

Voltei puto da vida pelo que tinha passado. Ao ligar a televisão, às 11h30 do dia 11 de setembro, vi a última torre do World Trade Center, em Nova York, desaparecer. A antena do alto do segundo prédio gêmeo mergulhou na nuvem de poeira. Parecia um foguete de Cabo Canaveral, só que ao contrário, em vez de subir, desceu. Corte rápido para um fumegante Pentágono, em Washington, e mais um zap noutro canal. Curva para a esquerda e Boeing explodindo...as duas torres ainda de pé...kamikases...aviões sequestrados....zap...zap...zap. Em pouco tempo todos os canais mostravam as mesmas imagens. Um minuto de silêncio do conservador Bush...possível ato terrorista...alta do petróleo....alta do dólar...refugiados palestinos comemorando no Líbano...bandeiras verde, branca e preta com um triângulo vermelho...fuga para o ouro...guerra....Pearl Harbor... milhares de mortos. Isso sim que é raiva, pensei.

Um dia antes, uma segunda feira, volta do feriadão do 7 de setembro, entrei cedo no banco ao lado da Prefeitura e vi aquela multidão de cabeças. Pareciam refugiados de um outro tipo de guerra, olhos conformados com a longa espera que se seguiria, até que um dos poucos caixas fossem alcançados, como se fossem um prato de comida que seria servido aos famintos. Pobres pacientes e, logo, eu sabia, seria mais uma das vítimas de alguém sem rosto. Alguém que decide nos infernizar a vida das sombras e nunca é punido. Um rei com muitos vassalos, todos prontos para cuidar que cidadãos comuns, pobres coitados, esqueçam seus queixumes com o tempo e passem a dizer, apáticos nas filas para isso e aquilo, "fazer o que, né".

Antes de passar pelo detector de metal, um rostinho bonito, de uniforme, me perguntou se podia ajudar.
- Começou, pensei.
Mostrei a guia de depósito preenchida em casa. Tinha pego um punhado de guias numa das idas ao banco, para não ter que esperar meia-hora pelo preenchimento. Era tudo igual, todo mês, só variando o valor a ser depositado. A rostinho bonito ficou surpresa com o fato, pegou a guia e pediu para que eu aguardasse. Ela voltou minutos depois e disse, toda cerimoniosa, que a ge-rên-cia queria falar comigo. Subi ao primeiro andar e fiquei aguardando a gerente, gorda e de óculos na ponta do nariz, sair de sua mesa e vir ao meu encontro. Antes dirigiu-me dois ou três olhares, por cima dos óculos, enquanto cochichava com um segurança careca, entroncado e alto, que ostentava um rádio transmissor. Ele veio ao meu encontro primeiro e, sem ao menos dar um bom-dia, foi logo perguntando quem havia me dado a tal guiazinha. Mesmo que tivesse sido educado eu não diria nada. Disse que havia apanhado o papel no balcão, numa das inúmeras vezes que havia estado no banco e que não lembrava mais quem havia liberado a tal guia.
- Toda hora tem uma cara nova no balcão, alfinetei.
Depois veio a gerente tentar me convencer que preencher a guiazinha no banco era "absolutamente indispensável". "Ordem da diretoria", disse. Era perda de tempo discutir com esse tipo de gente. Ela ficou com a guia que eu trouxe preenchida e disse que eu precisava passar no balcão. "A guia não tem validade e caso tenha mais em casa, jogue fora", ordenou.

No balcão, uma atarantada funcionária, de rosto inexpressivo, como uma prisioneira obrigada a fazer trabalhos forçados por muitos anos, atendia, ao mesmo tempo, uma voz estridente ao telefone e uma mulher sentada a sua frente, que segurava um papel e reclamava em vão do desaparecimento de 20 reais da sua conta.
- Quero fazer um depósito, disse, na primeira oportunidade.
A coitada passou a atender nós três, sozinha. Tapou o telefone com a mão e me tomou por ignorante. Disse que era só ir no caixa.
- Preciso fazer um depósito judicial e o papel deve ser preenchido aqui, expliquei, rápido, ganhando sua atenção.
A mulher dos 20 reais e a voz do telefone ficaram em segundo plano. Depósito judicial?. Ela repetiu atarantada, coçando a orelha, como se estivesse tentando lembrar-se de algo que tinham lhe ensinado mas ela esquecera. Deixou o telefone sobre a mesa e se aproximou, sorriso triste, como uma profissional de bordel diante de mais um cliente.

Outra funcionária do setor, mais nova, chegou e a mulher dos 20 reais grudou nela. A que queria atender todo mundo sozinha perguntou a ela sobre o boleto azul, que tinha acabado e ela não achava mais. Depois de revirar gavetas e dar alguns telefonemas, a coitada resolver fugir. Abandonou a bancária nova e foi tomar um ar, café ou foi ao banheiro pensar em largar tudo e ir para algum falso paraíso.

Alguns anos antes eu mesmo decidi ir ao paraíso. Meu paraíso particular. Resolvi ter semana de trabalho de deputado, férias de juiz e salário de desembargador, numa ilha do Paraná. Consegui apenas a semana de trabalho de deputado na tal ilha. Logo comecei a procurar serviço no paraíso e então, ficou assim minha vida: De sexta a terça ou quarta, eu trabalhava no paraíso e às quartas e quintas eu trabalhava na Capital, para pagar dívidas fora de controle que vinham se acumulando, devido aos juros escorchantes. Um problema ligado à dívida externa em dólar, Fundo Monetário Internacional (FMI), coisa que eu não queria mais entender, depois de perder vários zeros e bens na aventura de nossos governantes por cruzeiro, cruzado, cruzados novos e, agora, o real.

Anos mais tarde, nestas idas e vindas entre o Litoral e a Capital, conclui que o paraíso a gente mesmo faz, não deixando que patrões, burocratas, governo, amigos, família e outros chatos do sistema nos infernizem com suas regrinhas, carnês, guias, taxas, impostos, terninhos iguais, predinhos de vidros fumê e quejandos.
- Carro a álcool que tosse na arrancada e arria a bateria no inverno? Não compro mais.
- O Collor tomou a poupança de uma vez e a devolução foi picada? Não deposito mais.
- Banco não aceita cheque de outro banco? Não uso mais cheque.
- Me roubaram o cartão e eu me incomodo com as compras que não fiz? Fecho o cartão.
- Celular não funciona direito? Não quero.
A TV está uma merda? Desligo.
E por ai vai a coisa. Descobri que posso viver perfeitamente bem, mantendo saudável distância de coisas que aporrinham a vida da gente, como musiquinha de caminhão de gás, vizinho barulhento, filas de carros nas voltas dos feriadões, sogra bem intencionada e vendedores de qualquer coisa tocando nossa campanhia, telefone ou mandando mensagens pelo computador.

Uma ou outra vez tenho que aturar, como agora, no banco, mas já vou prevenido, para não perder o bom humor. Depois que a administradora do meu 4 X 4 parede fina, escuta peido de todos os vizinhos, passou a cobrar 20% de multa por atraso no condomínio, mais 10% adicionais a título de reembolso de despesas de cobrança, sobre o valor total, com a inflação perto de zero, como afirma o governo neoliberal, resolvi comprar a briga e fazer os depósitos no banco mais próximo e menos frequentado possível. Fiel aos meus princípios de paraíso, deixei de ser otário, indo até a administradora cumprir minha obrigação com taxas atrasadas e sendo obrigado a pagar mais 10% para os espertalhões que ficavam lá sentados. Parti para a guia azul, sem os 10% e já coloquei uma placa de vende-se na frente do apartamento, para me livrar da ida mensal ao banco — que já dura dois anos, depois que fui ao Procom e, todo mês, a novela da guia perdida se repete — e da administradora abacaxi.

Mas enquanto durar a briga, não entrego os pontos. Por isso aguardo sentado, pacientemente, o retorno da funcionária que saiu da linha de frente enquanto engrossa a fila do balcão. Fiquei lá cerca de uma hora, quando finalmente apareceu o papel e a funcionária mais nova passou a preenchê-lo a mão. Pediu-me os documentos, que pela enésima vez forneci ao banco. Tinha letra bonitinha, infantil, de gente bem amestrada. Quando terminou, vi que não tinha nada diferente, a não ser a letra. Era tudo igualzinho à outra guia que a gerente levou. Me entregou o papel e disse que seriam cobrados 10 reais de taxas pelo serviço.
- Cobrança do quê? Perguntei.
Ela informou que era para pagar o aviso de que o dinheiro estava na conta do credor. Disse que não iria pagar para fazer um depósito e que eu mesmo faria a remessa do aviso, já que o preço do concorrente, o Correio, era mais barato. Outra demora. Foi a vez da mais nova sumir, para falar com alguém sobre o assunto. Quando voltou, mais azeda, não tocou na cobrança. Apanhei o papel e ao ver que o mar de cabeças tinha tomado conta de todos os espaços, cometi uma besteira. Pensei naquelas propagandas maravilhosas de bancos na era da informática, com todas as agências interligadas, facilidade disso e daquilo. Perguntei se podia pagar em outra agência do banco. Seus olhos brilharam. Ela me disse que não, que era proibido sair com a guia azul do banco. "Ordem da diretoria". A sádica queria me foder. Se eu tivesse ficado quieto, poderia ter ido para a fila e, depois, saído de fininho, para tentar o depósito em outro lugar. Devolvi o papel contando até dez e, com um sorrisinho falso como o paraíso, sai puto da vida do banco, perto da hora do almoço, pensando em vingança. Perda inútil de tempo, toda vez que ia lá, por causa de uma guiazinha que deveria estar a mão. Teria que voltar à tarde ou outro dia e enfrentar o mar de cabeças de novo. Os bancos vivem lotados. Tinha um compromisso marcado para logo depois do almoço e, caso ficasse na fila dos refugiados, perderia o encontro que poderia me render um serviço e dinheiro. Decidi bater em retirada e fui para casa, pensando numa maneira de me livrar das idas mensais ao banco. Quando vi que o centro financeiro mundial estava sob ataque terrorista, confesso que me senti bem melhor. Imaginei que o rei sem rosto e seus vassalos, que realmente mandam e ditam regras absurdas para outros cumprirem, estavam numa fila imensa, de cem andares e suas vidas dependiam da rapidez com que ela se movimentasse.

* Jornalista

* Jornalista

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